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Archive for maio \23\UTC 2010


O Sol Negro da Noite
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Uma análise filosófica do Cântico dos Cânticos

Roberto Romano/Unicamp

O título desta alocução produz estranheza. No mundo de hoje, o religioso bate em retirada diante das ciências e das técnicas, o universo indica soluções imanentes para sua gênese e desenvolvimento, dispensando, como disse um dia Laplace a Napoleão, a “hipótese Deus”. Isto, no plano dos cientistas. Na vida cotidiana, o sagrado se comercializa nas televisões, vende milagres sem graça ou beleza, num prosaísmo inaudito. Entre os físicos e pastores eletrônicos, resta pouco espaço para o exercício filosófico e sua irmã gêmea mas rival, a poesia. Unir, como se anunciou, os cantares de Salomão, um sábio poeta, e filosofia, parece tarefa desprovida de sentido.

Quero centrar minha fala no seguinte problema : o que significa “ler” um poema bíblico ? Como este labor foi realizado na vida cristã, enquanto herança do mundo judaico ? Em primeiro lugar, evocarei algumas formas de exegese que enlaçam filosofia e poesia bíblica. Depois, indicarei a técnica de leitura mais prestigiosa na vida eclesiástica, desde o catolicismo até a experiência protestante. Terminarei indicando o rompimento com este método, no pensamento filosófico moderno, especialmente em Spinoza .

Antes, indico a dificuldade de todos os que desejam abarcar sinóticamente, nas obras capitais da humanidade, como os escritos bíblicos, os versos homéricos, as fantasias dantescas, o elemento filosófico, o religioso, o poético. Luciano, o grande satírico sírio, dizia ter inventado um gênero sério-cômico, e que este, para o leitor desavisado, poderia parecer um monstro.

Unir o diverso é dificil para todo intelecto que deseja pensar a vida humana, mistura complexa do Mesmo e do Outro, de harmonia e guerra dos opostos. Bem diz Holderlin, poeta e filósofo translúcido : “Como o canto do rouxinol no escuro, o concerto do mundo só é ouvido divinamente na dor mais profunda”. Ou seja, palintonos harmonie, na frase de outro poeta e filósofo, Heráclito de Éfeso, tensa concórdia do pensamento. Quem observa as várias formas do ser humano, afirma ainda Hölderlin, “só encontra dissonâncias, música demasiado surda, barulhenta, salvo na ingênua limitação infantil, cujas melodias ainda permanecem totalmente puras”.

Quando assistimos as guerras suscitadas pelas interpretações estanques e dogmáticas dos textos sagrados em diversas culturas, o espanto se apossa de nossa alma. Como foi possível, em nome de tamanha beleza, gerar tão grande ódio ? Como surgiram a Inquisição, os holocaustos, as sentenças de morte como a que se desferiu contra Salomon Rushdie? Outra vez, a palavra do mesmo Hölderlin: “o ser humano … está dividido gravemente, apresenta a imagem de um tamanho caos, que a vertigem se apossa de todos os capazes de ver e sentir. Mas a Beleza, expulsa da vida, se refugia nas elevações do espírito”. Paz e luta, segundo o poeta, alarido e silêncio, tudo conspira para a epifania do Belo, eternamente suspenso e iminente. “Tudo ocorre” proclama o artesão maior do verso, “pelo desejo, tudo acaba na Paz (…) as dissonâncias do mundo são como brigas de amantes. A reconciliação está na luta, tudo o que foi separado se reúne”.

Neste sentido, Hölderlin não está longe de Hegel. Este, proclama na sua Estética : “ Mesmo na dor mais profunda e na extrema dilaceração do ânimo, não deve faltar a reconciliação consigo mesmo, que até nas lágrimas e no sofrimento conserva o traço da certeza quieta e feliz. A dor permanece bela numa alma profunda, como até no Arlequim ainda dominam a graça e a gentileza”. Temos, nos dois grandes espírito modernos, o desejo de reconciliação dos opostos, movido pelo pensamento filosófico e pelo impulso poético. Mas podemos descer um pouco mais no tempo, utilizando a imagem hegeliana da pintura, para falar de um autor que uniu, diretamente, filosofia e poemas bíblicos, sem esquecer Homero, Virgilio, e tantos outros nomes da cultura greco-latina.

Referindo-se à unidade, na Divina Comédia, entre filosofia e poesia, avança uma notável analista do trabalho dantesco : a separação do escrito em duas partes rivais, doutrina e versos, “mata o poema. Fora do corpo, a mão não é mais a mão, o olho não é mais o olho, dizia Aristóteles, que Dante chama o ‘mestre dos que sabem’ e que tinha pleno domínio das divisões e distinções. Mais vale comparar a obra poética de Dante a um destes trípticos em madeira dos quais os pintores flamengos nos deixaram os modelos; o elemento poético e o elemento doutrinal são pelo menos tão inseparáveis em Dante, quanto a madeira e a pintura no tríptico”. A autora relativiza, logo a seguir, esta imagem, porque muito estática. E compara o nexo entre filosofia e poema como o entretido num corpo vivo : “a doutrina cumpre o papel de esqueleto,a poesia é a carne que o reveste. Doutrina e poesia são indispensáveis para explicar a beleza da obra”. [1]

Assim, é possível e necessário pensar o poema, filosoficamente, mas também reconhecer na filosofia a força poética. E ambos os lados convergem quando se trata de refletir intelectualmente sobre uma poesia religiosa. É o que eu tentarei fazer aqui, sabendo que irei falir, por falta de tempo e de saberes. Tomarei, inicialmente, a interpretação alegórica dos textos bíblicos, sobretudo do Cântico dos cânticos. Desenvolverei este modo pelo qual a Igreja e seus pensadores interrogaram a escrita sagrada. Depois, indicarei como, após Spinoza, esta leitura perde a validade explicativa, em termos filosóficos, sendo conduzida ao plano da simples imaginação, afastada do intelecto. Indicarei que esta ruptura entre acúmulo teórico e poético liberta a poesia das amarras filosóficas, mas empobrece os dois campos do pensamento. Finalmente, analisarei como a filosofia romântica lutou contra o intelectualismo das Luzes, defendendo a imaginação e o sentimento poético do mundo.

Escutemos o belo início do poema atribuído a Salomão, na lingua que mais serviu a Igreja, do seu nascimento até os nossos dias. “Osculetur me osculo oris sui; quia meliora sunt ubera tua vino, fragantia unguentis optimis”. [2] Os senhores ouvem este suspiro erótico : “Que me beije com beijos de sua boca! Teus amores são melhores do que o vinho, o odor dos teus perfumes é suave”. [3] Sabemos a sequência decor. O jogo de cores, centrado na figura da amada, é o ponto sublime destes versos : “Nigra sum sed formosa…sicut tabernacula Cedar, sicut pelles Salomonis”. “Sou morena”, diz cautelosamente a Biblia de Jerusalém, mas por que se recusa a palavra certa? “Sou negra, mas formosa, filhas de Jerusalém, como as tendas de Cedar, como os pavilhões de Salomão”. Certo, a pele escura é fruto da exposição ao sol da jovem férvida, o que indicaria seu estatuto de escrava. Mas num poema, não vale também notar os processos de produção imanente ? A menina é negra como as tendas, tecidas com pelos de cabra escura. Ela mesma, pois, é um tecido onde a cor é marca distintiva. Negra e formosa. Quantos preconceitos de ordem étnica e cultural seriam corrigidos, se os ouvidos atentassem para a matéria dos textos !

Elizabeth de Fontenay, num lancinante livro sobre Diderot e o materialismo, mostra até que ponto foi a cultura “branca” e “cristã” na sua loucura. Ela relata o caso de Sara Bartmann, uma hotentote que serviu como cobaia de observação para os “cultos” machos e cientistas do século 19, que nela viam um ser próximo do macaco, dando-lhe o apelido satírico “Venus Hottentote”. Isto, para ressaltar a beleza da Venus grega. Esta última seria kalipígea, a hotentote seria esteatopígia. Os senhores sabem o que isto significa. Além desta parte, que mostraria “científicamente” a suposta inferioridade da negra, o nariz, os lábios, tudo foi medido para demonstrar a sua falta de humanidade. Morta Sara Bartmann, seu corpo foi doado ao Museu de História Natural, onde seu esqueleto se conservou. Fontenay indica que hotentotes eram mostrados no Jardin d’acclimatation de Paris desde 1888, até o século 20. Eles também eram exibidos, para gáudio da “civilizada” e “caridosa” platéia, nos Folies Bergere. Massa vulgar e cientistas refinados, todos viam na alteridade da cor e da figura dos membros, o sinônimo divertido de um ser humano apenas na aparência.

Cito Fontenay : “vemos estes professores de zoologia, observando durante três dias, em suas quatro faces, esta mulher imóvel e nua, que posa para quatro desenhistas, tendo a superfície de seu corpo vigiada pelos olhares-escalpelo. Esta lição de anatomia à flor da pele e o relatório posterior, mereceriam constituir uma figura determinante na história do olhar do euro-macho”.[4] Não é de admirar que um povo assim, “civilizado”, tenha visto como “normal” o massacre de milhões de indivíduos “inferiores”, a partir de “sinais” físicos “evidentes” de sua inferioridade. Não se diga que os nazistas foram os únicos culpados nesta história. Os euro-machos, os americano-machos, até hoje produzem concursos de “beleza”, onde mulheres passivas se submetem ao olhar escalpelo, para saber qual o tipo mais adequado para reproduzir seus filhos.

Recentemente, no Brasil, uma besta fera do meio artístico elogiou Hitler quando exprimia seus desejos da fêmea ideal para gerar seus filhotes. A entrevista, todos os senhores a leram na revista Veja. Outro bárbaro, agora na direção de pequenas empresas, referiu-se à uma senadora da república, cuja cor é negra, em termos baixos, repercutindo milênios de preconceitos estéticos.

Sou negra, mas formosa : “foi o sol que me queimou”. Sim, o sol queima. Mas a recusa da cor negra queima ainda mais fortemente os que a ostentam. O Brasil, os Estados Unidos da América, são terras calcinadas e secas, neste sentido. A cor não é obstáculo para as vista extasiada do amante : “És bela, minha amada, e não tens um só defeito !”.

“Que me beije com beijos de sua boca!”. Embora todas as edições contemporâneas do texto insistam em indicar o caráter não alegórico do poema, o qual seria o canto do puro amor, distante do ascetismo estéril e da lascívia pecaminosa, por isto representando uma figura do mandamento divino, “crescei e multiplicai-vos”, as culturas judaicas e cristãs tiveram particular predileção por este poema erótico para invocar o enlace amoroso entre Deus e os homens, reunidos em Israel, ou na Igreja. Esta exegese antiga predominou até o século 19. Mesmo hoje, muitos escritores religiosos acentuam o texto como um outro modo de falar (alegoria…) sobre o vínculo entre o divino e o humano.

A base cristã do método alegórico, para ler os escritos do Antigo Testamento, encontra-se em São Paulo, na Primeira Epístola aos Coríntios: “Haec autem omnia in figura contingebant illis : scripta sunt autem ad correptionem nostram, in quos fines saeculorum devenerunt”. Na Biblia de Jerusalém : “Estas coisas lhes aconteceram para servir de exemplo e foram escritas para nossa instrução, nós que fomos atingidos pelo fim dos tempos”. Desaparece, no texto português, o termo “figura”, substituído por “exemplo”. O valor semântico pode ser próximo, mas ele realiza um “sequestro”, como diria Haroldo de Campos, da história alegórica que seguiu-se na cristandade, já herança de técnicas interpretativas judaicas.

Como expõe de forma segura De Lubac [5] o pensamento medieval, a partir de uma longa herança greco-latina, entendeu o texto bíblico, e sobretudo o Cântico dos cânticos, como figura, indicando que na Bíblia tudo é profético, alegórico, típico. Tudo, nela, é sinal de mistério : as palavras, as sílabas, as letras, as partículas, o menor iota, a própria pontuação. O venerável Beda, lê, seguindo São Paulo, que “omnia” (tudo), “não significa apenas todos os fatos e todas as palavras, mas ainda os lugares, os tempos, as situações, as circunstâncias”. Outro doutor cristão dizia que tudo, no Antigo Testamento, era “figura”, porque tudo estaria referido a nós. A história de Israel inteira torna-se, com sua tradição escrita e oral, profecia do tempo cristão.

Na verdade, esse caminho interpretativo teve início nos pensadores judeus. Não é apenas no Cântico dos cânticos que se usa a imagem do vínculo conjugal para descrever as relações tumultuadas entre Deus e homens, entre Javé e Israel. Encontramos este traço em Isaías (5, 1 e seguintes) onde Israel é chamado de “prostituta” pelo profeta, em lugar do antigo amor. Se o povo se arrepender, “como o noivo se alegra da noiva, assim de ti se alegrará o teu Deus” (Isaías, 62, 5). Deus canta o amor nupcial entre Ele e seu povo em Jeremias : “Lembro-me de ti, da tua afeição quando eras jovem, e do teu amor quando noiva, e de como me seguias no deserto…” (2. 2). E também em Oséias : “Desposar-te-ei comigo em fidelidade, e conhecerás ao Senhor” (2, 20). [6]

A figura conjugal é nuclear na hermenêutica judaica, sobretudo a recebida pela Igreja cristã. A idéia das “núpcias sagradas” tem papel importante no Zohar e na Kabala. No Zohar, trata-se da reunião de dois Sefiroth, do aspecto feminino e masculino em Deus. O símbolo da união conjugal entre Deus e Israel, entre Deus e a alma, é muito importante.

No Cântico dos cânticos, os leitores judeus ou cristãos viram aflorar o sentido mais atraente do mistério. Quem o lê, se possui muita sabedoria, nele enxerga o que está oculto. Se não possui saber e prudência, nele percebe apenas a superfície. Se o leitor é “carnal”, ele só apalpa as dobras do texto sagrado. Se é “espiritual”, ele penetra os seus inesgotáveis sentidos, atingindo o Santo dos Santos, lugar onde o divino se revela ao que o ama. No século XII, o Cântico dos Cânticos é o texto mais comentado da Biblia, sobretudo pelos cristãos. Segundo o Rabi Yossé, o rei Salomão o entoou enquanto construía o Templo, e todos os mundos inferiores e superiores celebraram cantos de louvor, cujo ápice é o Cântico dos Cânticos. Este canto abarcaria a Thora, o Gênesis, o segredo dos Patriarcas. Ele relataria, sob forma velada, todos os fatos importantes da história israelita, como os Dez Mandamentos, a Aliança, a travessia do deserto, a chegada em Israel, a construção do Templo, o exílio na Babilônia, e a liberdade final. O Cântico dos cânticos celebraria o “sabbah” derradeiro, o “dia dos dias”, que reúne o presente, o passado, o futuro.

Segundo Rabbi Eliezer, quando Deus formou o mundo, ele fez com a mão direita o céu, e com a esquerda, a terra, criou anjos para cantar os cânticos diurnos, e outros anjos para cantar a noite. Quando os homens repetem o Cântico dos Cânticos, eles seguem os anjos, unindo suas vozes e renovando a terra. O Rabbi Neemias disse que “Feliz é o homem que penetra nos segredos do Cântico dos cânticos”. Assim, ele vai até o fundo da Thora, chega à sapiência e eleva diante de Deus o presente, o passado, o futuro.

O Cântico dos cânticos não integrava, primitivamente, os textos canônicos da Biblia. Nele, Deus nunca é mencionado. O Rabi Aquiba (século II) conseguiu faze-lo entrar no canon. Escreveu o mesmo Rabi : “Toda a Biblia é santa, mas o Cântico dos cânticos é sacrossanto (Kôdesh Kôdeshim)”.

Na Igreja, a coletânea de poemas foi prezada de modo intenso. Mas a sua exegese era difícil e perigosa. São Bernardo, num sermão sobre a Epifania, ao explicar o Evangelho das nupcias de Caná, disse que o esposo designa o Cristo, e a esposa somos nós. Todos somos uma esposa diante do divino. Em seu comentário explícito sobre o Cântico dos cânticos (nos Sermões 8, 9, 10), São Bernardo leva adiante a figura conjugal. Ao comentar o enunciado “Que ele me beije com um beijo de sua boca”, o mesmo exegeta compara a experiência deste “beijo espiritual” a um maná secreto, a um signo de amor. O beijo, para ele, significa a efusão do Espírito Santo. Trata-se de uma luz que traz conhecimento, mas que também oferta o fogo amoroso. A esposa é a nossa alma sedenta de Deus. Ela ama com tamanho ardor que esquece a sublime majestade de seu amante. Segundo Bernardo, o Cântico dos cânticos pode parecer erótico, mas é, na verdade, espiritual. Os seios da esposa, por exemplo, aleitam as “almas novas”, as que começam apenas a procurar Deus.

Só há uma identidade entre o homem da carne, preso ao erotismo humano, e o homem espiritual : eles nunca estão saciados. Quem deseja riquezas, nunca se sacia, quem aspira pelo poder, nunca se sacia, quem tem fome de Deus, sente sua fome aumentar quanto mais próximo está do divino. O poema, pois, é um conjunto de signos, símbolos, que permite passar do homem carnal ao espiritual, do visível ao invisível. O divino e o terrestre, embora diferentes em dignidade, se encontram e se amam. O mundo não se prostituiu totalmente. A alma esposa não despreza a criação, mas a valoriza. Ela espera o dia do Juízo Final, quando haverá o encontro dos dois extremos, o humano e o divino. Neste dia, serão unidos o exterior e o íntimo, e não mais haverá masculino ou feminino.

Na piedade cristã, Maria é chamada a Esposa e a Mãe de Deus, mãe do Rei e sua esposa (Mater Regis et Sponsa), esposa do Senhor (Sponsa Domini), o templo do Espirito Santo (Spiritus sancti templum). Ela simboliza a esposa perfeita. São Bernardo chama a Virgem de mãe e filha de seu Filho, o que ecoa em Dante, no Paraíso : “Vergine madre, figlia del tuo figlio (…) Nel ventre tuo si raccese l’amore, per lo cui caldo ne l’eterna pace/ cosi `e germinato questo fiore”.[7] Todos estes pontos citam direta ou indiretamente o Cântico dos cânticos, inclusive num perigoso cruzamento com o incesto. Basta lembrar os verso seguintes : “Quis mihi det te fratem meum sugentem ubera matris meae, ut inveniam te foris et deosculer te et iam me nemo despiciat?” ( “Ah! Se fosses meu irmão, amamentado aos seios da minha mãe! Encontrando-te fora, eu te beijaria, sem ninguém me desprezar”).

O Cântico dos cânticos apresenta uma filosofia, a dos “santos dos santos” que corresponde à idade perfeita da vida espiritual. Através do poema, somos conduzidos à união entre Eterno e tempo, entre Deus e nosso espírito. Por que um poema, cheio de signos e símbolos ? Porque, para atingir Deus, é preciso passar pela carne. O próprio Deus se fez carne, na figura de Cristo. Não poderíamos falar com Deus sem este meio visível e erótico. Uma linguagem puramente espiritual seria inaudível para nós. Adianta São Bernardo : “Assim como é impossível compreender um discurso grego ou latino se não se conhece o grego ou o latim, também para aquele que não ama, o amor é uma língua bárbara” (Sermão 79, sobre o Cântico dos cânticos).

Não apenas em sentido laudatório se compara a Virgem Maria, figura da Igreja, à esposa do Cântico dos Cânticos na Idade Média e no início da moderna. Tomemos um trecho do Paraíso dantesco : “Cosí si fa la pelle bianca nera/ nel primo aspetto della bella figlia/ di quel ch’apporta mane e lascia sera” (Canto 27). (“Assim se faz negra a pele branca, da bela filha o primeiro rosto, daquele que traz a manhã e deixa a noite”). Lembremos que este Canto se inicia com Dante que ataca Bonifácio 8, o papa simoníaco, comerciante de Cristo e de sua Igreja, promotor da prostituição das coisas santas, usurpando o lugar de São Pedro. Erich Auerbach, analisa a passagem num texto intitulado “Pelles Salomonis” [8] , e remete para o pensamento do homem medieval, douto ou não. Cito Auerbach diretamente : “os motivos ‘bela filha’, ‘pele branca’, ‘negra’, ‘sol’, contêm para o leitor medieval uma referência à passagem dos Cânticos, o verso ‘Nigra sum sed formosa, filiae Jerusalem, sicut tabernaculum Cedar, sicut pelles Salomonis’(…) A alusão é tanto mais evidente, com certeza para o leitor medieval, não para nós, quanto se pensa que no Canto 27 inteiro do Paraíso o tema é a corrupção da vida da Igreja (com a cólera e a vergonha que isto suscita). Este tema está ligado constantemente ao da mudança ou perda da cor (versos 13-15, 19-21, 28-36)”.

Semelhante mudança de cor liga-se, no mesmo Canto à crítica dos que prostituiam a Igreja, esposa de Deus : “Non fu la sposa di Cristo allevata/ del sangue mio, di Lin, di quel di Cleto, per essere ad acquisto l’oro usata; ma, per acquisto d’esto viver lieto” (“Não foi a esposa de Cristo alimentada com meu sangue, com o de Lino e de Cleto (papas mártires, como Pedro), para ser usada na conquista de ouro, mas para a conquista deste viver feliz”). Os padres e o papa simoníaco tornam-se negros, enquanto a Igreja deveria ser alva. O comentário de Auerbach é eloqüente : ninguém, antes de Alighieri, “teria dito que no seu tempo a corrupção da Igreja tinha provocado um obscurecimento do céu semelhante ao que existiu durante a Paixão de Cristo e que a perversão da sociedade humana era produzida pela falta do poder imperial. Estas idéias eram suas, e de ninguém mais, e por isto ele usou motivos como filha, pele, descolorir, quando estas vinham ao seu encontro, para ajudá-lo em seu propósito. Deste modo, ele ofereceu uma variante ou combinação nova da interpretação tradicional : a sociedade humana (“sponsa Christi”. “a bela filha”) perde sua cor diante do esposo”.

Quando me referi ao nascimento do método alegórico, disse que os tradudores da Biblia de Jerusalém tomaram o termo “figura” por um outro, o de “exemplo”. Ocorre que na edição grega e latina da 1a Epistola aos Coríntios, os termos empregados são “tipo” e “figura”. São Paulo escreve numa lingua já trabalhada por séculos onde se recolheram as culturas grega e latina, de Platão, no mínimo, até os estóicos, passando por Aristóteles. Neles, os termos “figura” e “tipo” já haviam sido estabelecidos na metafísica, na ética, na retórica, na gramática, adquirindo sentidos polissêmicos, cada vez mais amplos e abstratos. “Figura” tinha adquirido, por exemplo na poesia de Ovídio, um significado retórico preciso, em tom irônico. Estava próxima, tal palavra, de “fantasia”.

Nos escritores cristãos, entretanto, “figura”, sem deixar os vários sentidos plásticos anteriores, passou a indicar algo verdadeiro : “figura é o mesmo sentido literal ou o fato referido, o cumprimento futuro nele indicado, e também é a ‘veritas’ Deste modo, ‘figura’ aparece como termo médio entre ‘letra-história’ e ‘veritas’”. “Exemplum” é apenas um dos significados de figura, no campo da interpretação alegórica cristã, a qual, embora unida às formas anteriores de alegorismo, como o filosófico de Filon de Alexandria, tinha uma “carne”, justamente o fato de sua inserção no tempo. Uma “figura” pretérita unia-se à uma outra, presente ou futura, dando sentido à existência dos homens nos inúmeros lugares do tempo. Estas “figuras”, apresentadas plasticamente nos poemas bíblicos, como o Cântico dos Cânticos, tiveram eficácia de convencimento.

Conforme diz Auerbach : esse modo de apresentar o Eterno no tempo, através do poético, “conjugava exemplarmente a força prático-política da fé com aquelas poéticamente criadoras e transformava a concepção hebraica da ressurreição de Moisés no Messias num sistema de profecia real (…) E assim o Antigo Testamento ganhou uma nova atualidade dramático-concreta enquanto perdia a força da Lei e a peculiaridade histórico-popular”.[9] Dentre os monumentos poéticos cristãos que marcam nosso espírito, ampliando o tema do casamento e dos Cânticos dos cânticos, está a Divina Comédia, como vimos antes. Nesta, também vimos, a poesia une-se, como carne aos ossos, à um conjunto doutrinário filosófico que pretende atingir o verdadeiro através da figura, por seu meio, e não rompendo com a figura, com o tipo, com a imagem.

Assim, escreve Auerbach em outro livro, “O Antigo Testamento se transforma numa sucessão de pre-figurações isoladas, Adão pode pode tornar-se não só uma figura, mas um profeta figural de Cristo”. Em contrapartida, “Maria é o jardim (…) a origem da água viva do Cântico dos Cânticos”. [10]

Tal modo de pensar, filosófica a teológicamente, permaneceu até o Renascimento, sendo gradativamente abandonado a partir das pesquisas dos filólogos e historiadores laicizantes, cuja liderança cabe, sem dúvida, a Lorenzo Valla. Os modernos interpretes do texto bíblico tendem a atenuar ao máximo este figurativismo alegórico, separando a figura do seu intento de exprimir, sob forma velada, a verdade. Talvez um dos últimos dos grandes autores da era renascentista a utilizar esta via, com fortes sinais de neo-platonismo, tenha sido Giordano Bruno, preocupado com a unidade do cosmos, a imagem e a memória. Na sua obra “De umbris idearum”, Bruno inicia uma seção capital sobre o nexo entre nossa inteligência e memória e o Deus único, citando o Cântico dos Cânticos: “Sub umbra illius quem desideraveram sedi…”. (”Sentei-me à sombra daquele que eu amo”) (2, 3). Comenta Francis Yates, no seu livro sobre a Arte da Memória : “Devemos nos sentar à sombra do bom e do verdadeiro. Para lá dirigir os sentimentos através dos sentidos interiores, através das imagens que se encontram no interior do espírito humano, isto é sentar-se à sombra”. Deste modo, “dentro da natureza tudo está em tudo. No intelecto, tudo está em tudo. E a memória pode memorizar tudo, a partir de tudo”. [11]

O trabalho moderno, na interpretação filosófica e teológica dos textos bíblicos, deu-se a partir de Lorenzo Valla, de Erasmo [12] , e de Lutero, seguidores de Valla, de modos distintos, mas todos com desconfianças e críticas ao alegorismo. O primeiro, em nome do rigor filológico e do decorum literário, o segundo, especialmente pelo seu programa de seguir apenas a Escritura. Os reformadores criticaram nos “papistas” a sua “liberalidade alegorizante” como sacrilégio. Do lado católico não tanto ortodoxo, como no filósofo Pascal, se defendeu o método antigo. Pascal afirma que “São Paulo ensinou aos homens que todas aquelas coisas tinham acontecido em figura”. E Pierre Nicole, um dos autores da Logica e da Gramática de Port-Royal, textos fundamentais de filosofia clássica, num prefácio escrito para o livro intitulado Explicação do Cântico dos Cânticos (de M. Hamon), defendeu o alegorismo.

Mas essa atitude se enfraqueceu, como o demonstra o Pe. De Lubac. Além disto, continua De Lubac, “a ofensiva dos cientistas vinha reforçar mais e mais, num outro terreno, a atitude da Reforma”. A crise instalada na Renascença, e que piorou no século 17, atingiu seu ponto máximo com as Luzes, no século 18. Em 1727, no livro Notas Anexas sobre a Carta de um Prior a um de seus Amigos, encontramos uma frase importante, criticando o alegorismo anterior : “Que abuso fazer depender a inteligência da Escritura do grau de imaginação, e da maior ou menor facilidade que se tem para colher relações e conveniências”. Temos aqui, na pena de um católico, algo que, se dito por um discípulo de Spinoza, levantaria gritos contra a ruptura entre ciência e sinal, entre imaginação e intelecto. Spinoza deu o ponto de partida mais grave neste rumo. Doravante, uma coisa é a Biblia, com sua poesia e ditames morais baseados no medo e na esperança, ou seja, na imaginação. Outra, é a filosofia ou a ciência, com base matemática, controlando o mais possível o imaginário poético e religioso, em proveito do saber.

Spinoza, com sua leitura da Biblia, causou um verdadeiro furacão na Europa judaica e cristã. Expulso da Sinagoga, ele não foi bem acolhido, muito pelo contrário, por católicos e protestantes. Sua influência foi decisiva nos principais teóricos do século 18 e 19, estando seu pensamento na própria gênese das reflexões materialistas, atéias, ou simplesmente agnósticas de um Denis Diderot, Jean-Jacques Rousseau, Voltaire, etc. Com Spinoza, enuncia Paul Vernière, um dos maiores conhecedores das Luzes e da filosofia diderotiana, “A Biblia não era mais o Livro, mas um livro trazido à medida humana e que, à semelhança de um texto de Orígenes ou de Salústio, deveria ser submetido a minuciosas investigações históricas e filológicas”. O tratamento Spinozano para os textos bíblicos passa pela questão da lingua (o hebraico e no que tange aos últimos livros do canon, o aramaico), pela semântica, comparando os textos e encontrando o sentido exato das palavras, sua acepção literal e metafórica, pela história do povo hebreu, a biografias dos autores, a transmissão das obras, as diferentes lições e como se estabeleceu o próprio canon.

Claro que o método spinozano, com raízes no renascimento, nos pensadores mais independentes do judaísmo e do cristianismo, exigiu resposta da Igreja. Esta cometeria suicidio, diz Vernière, se admitisse que a Biblia, base da crença e fundamento de suas decisões, fosse submetida ao destino das obras humanas, como os poemas homéricos. Se a Escritura nada mais fosse do que uma reunião confusa de mito, história e literatura judaica, como justificar a Revelação cristã ? Toda a história da filosofia cristã, e da exegese, passou a ter em Spinoza o seu inimigo mortal. [13]

Uma característica do método alegórico é o vínculo entre pensamento filosófico e imaginação poética. Spinoza rompe esta solidariedade. Para ele, como afirma a sua Ética (no Apêndice), “todas as noções que o vulgo tem o hábito de fazer uso para explicar a natureza são apenas modos de imaginar, e nada revelam da natureza de nenhuma coisa, mas apenas a constituição da imaginação”. Ou seja, quando lemos um comentário alegórico ou poético dos textos bíblicos, aprendemos mais sobre a cabeça do comentarista, os seus medos, os seus desejos, as suas formas de imaginar, do que algo sobre a lingua, a história, o sentido do próprio texto bíblico. Os próprios escritores do texto sacro, profetas, sábios, ou poetas, não são dotados, segundo Spinoza, “de um pensamento mais perfeito, mas de um poder de imaginar mais vivo”. (TTP,II).

Os que se distinguem pela imaginação, afirma o filósofo, “são menos aptos para conhecer as coisas pelo intelecto puro, e, pelo contrário, os que são superiores no intelecto e o cultivam por preferência, tem um poder de imaginar mais temperado, mais dominado e, como domado para que ele não seja confundido com o intelecto”. Como a simples imaginação não envolve, por sua natureza, o que é certo, a profecia –e os demais escrito bíblicos, sobretudo os poéticos– não poderia “por si mesma, envolver certeza, pois ela depende apenas da imaginação”.(TTP, II). O texto da Biblia apresenta um signo, um índice como prova de verdade. Este signo, pensa Spinoza, é exterior ao intelecto, e só pode ser forjado pela imaginação, a qual depende de figuras. Como neste plano tudo é incerto, a polissemia da exegese alegórico-poética marca a falta de ciência e de verdade. Esta, para Spinoza, não depende de nenhum signo, e o verdadeiro é o índice de si mesmo e do falso. Se um poeta bíblico, ou profeta, é refinado, suas imagens serão refinadas, mas não podemos esperar que elas nos tragam conhecimento físico, histórico, matemático.

O que significam as bodas de Caná para o comentador alegórico ? Infinitas coisas, entre as quais, o elo erótico entre Deus e os homens. O que significam as mesmas bodas para Spinoza ? Nelas, o milagre da mudança da água em vinho é recurso poético, imaginário de pessoas sedentas de vinho e de maravilhas que relatam o que lhes ia na alma, enquanto desejo. Assim, toda a Biblia, no AT e no NT, tem um estilo persuasivo que entra na economia das paixões. “Se a Escritura narrasse”, diz Spinoza (TTP, IV), “a ruina de um estado segundo os modos dos historiadores políticos, isto não comoveria de nenhum jeito a multidão. O efeito, entretanto, é muito grande, quando se pinta o que ocorreu com um estilo poético, e quando se relaciona tudo a Deus, como a Biblia tem o costume de fazer. Quando, pois, a Escritura narra que a terra ficou estéril devido ao pecado dos homens, ou que cegos são curados pela fé, estes relatos não nos devem comover, como também quando ela conta que devido aos pecados dos homens Deus se irritou, ficou triste, se arrependeu do bem prometido ou já feito, ou ainda que Deus se lembra de sua promessa diante de um signo e muitas outras histórias que são invenções poéticas ou exprimem as opiniões e os preconceitos do narrador”. (TTP, VI).

A Escritura ensina a plebe a obedecer ditames morais. E ela o faz usando uma lingua poética onde entram todos os recursos da retórica, fazendo apelo aos sentimentos humanos e jogando estes últimos sobre Deus, como se este fosse apenas um super-homem, e como se ele não ultrapassasse nossa imaginação, só podendo ser captado pelo intelecto superior.

O juízo de Spinoza sobre o escrito poético deu a este último uma liberdade diante do teológico-doutrinário. Mas contribuiu para a ruptura entre poesia e ciência, algo que se agravou na secularização dos século 18 e começos do dezenove. A filosofia gelada, pensam os críticos deste divórcio entre o sentido estético e o científico, acabou com a polissemia do signo e do símbolo mitológicos. Newton, com seu prisma que reduz as cores numa série material de conbinações físicas, retirou do arco-iris todo o seu encanto.

O maior ataque ao pensamento que afasta intelecto/ciência e imaginação/poesia veio com o romantismo, ampliação dos trabalhos de Edmund Burke, sobretudo nas Considerações sobre a Revolução Francesa, uma continuidade das análises sobre o sublime, pelo mesmo autor. Estas, como sabemos, vincaram a estética filosófica de I.Kant, do idealismo transcendental de Schelling e de Hegel, e foram nucleares nos textos românticos contra as Luzes e a ciência mecânica. Como resultado do pensamento que separa imaginação e intelecto, o mundo tornara-se desencantado.

Citemos Novalis, o maior poeta do romantismo : com a dessacralização da Biblia e do mundo físico, “os deuses desapareceram, e com eles seu cortejo -a natureza esgotou-se e perdeu a vida– foi amarrada à férrea cadeia do número árido e à estrita medida. A floração luxuriante dos viventes reduziu-se a palavras obscuras, feitas de poeira e vento. Desapareceram a fé evocadora e sua celeste companheira, a imaginação (…) a luz deixou de ser a morada e o símbolo celeste dos deuses -eles envolveram-se no véu da Noite”.[14] Com a filosofia do século 18 e 19, herdeiro de Spinoza e do racionalismo clássico, Deus morreu e o mundo foi mecanizado.Contra este desencanto, o pensamento romântico apelou para as nupcias entre racionalidade e fantasia, reabilitando a imaginação. Desde esta época, já nos inícios do século 19, o pensamento mágico foi a tônica na defesa do poético e na luta contra a físico-matemática que se basearia em necessidades, e que teria retirado todo traço humano da vida social e política.

As formas alegóricas, no século dezoito, tornaram-se cada vez mais intectualizadas, frias, secas. Isto, em todas as artes. Diderot é quase uma exceção, com seu colega inimigo, Rousseau, neste campo. A escrita destes dois filósofo tem carne, cores, sons, imagens profusas [15]. Por este motivo, ambos são indicados enquanto antecipadores do romantismo, ou simplesmente como românticos. Claro que este é um modo estranho de retirar ambos os pensadores de seu tempo, cometendo um anacronismo que apaga outros traços de seu trabalho. Mas a presença de um imaginário rico, capaz de erguer o pensamento e a fantasia à altura do sublime, tornou o par Diderot e Rousseau o mais presente no labor romântico, nas escritas de Goethe, Schiller, Herder, e outros.

Num mundo desencantado pelo número, os românticos tentaram romper o prestígio da alegoria intelectualizada, ressaltando as virtudes regeneradoras dos símbolos. Quem melhor enuncia isto, é Albert Beguin, no seu belo texto sobre A Alma romântica e o Sonho . No universo romântico, “os sons, as cores, os perfumes respondem-se mútuamente, os objetos se transfiguram sem cessar e deixam sua aparência. As flores se transformam em nuvens, as estrelas caem sobre o solo e espalham-se em corolas magníficas; as pérolas de neve se transmutam em olhos de pássaros, caem em lágrimas no espaço e formam ali as brumas. O gelo se transforma em névoa, neve, luz; um caminho aberto pela charrua estende-se sobre a terra e acaba num oceano com horizontes vaporosos. De uma lágrima nasce uma onda, a qual engendra um navio. Seres tornam-se pura música. Os pensamentos do sonhador bastam para mudar toda a paisagem, abrir portas fechadas, e um grande lírio, súbito, se transforma no símbolo da serpente, conselheira do Mal”.

É nesse quadro onírico e simbólico que os poderes da magia e do encantamento fizeram Novalis, como disse, o maior poeta romântico alemão, ressuscitar, nos versos e na dor, o Cântico dos Cânticos. Muitos dos senhores conhecem a biografia do poeta. Matemático, geólogo, ele viveu nos círculos próximos do primeiro romantismo. Encontrou uma jovem de quinze anos, Sofia, em 1794. Ficaram juntos no verão de 1795 e, breve, uma doença mortal a destruiu em 1797. Novalis cantou esta morte até a sua própria, num desejo de união com Sofia que se realizou em 1801, quando o poeta atingiu os 29 anos. Novalis escreveu sobre física, matemática, metalurgia, e muitos outros assuntos, sempre tentando realizar o programa romântico de uma transmutação do mecanicismo newtoniano e das Luzes. O que nos importa, é a sua guinada para o desejo de Sofia morta/viva, e sua retomada do Cântico dos Cânticos.

Nesse rumo, o conjunto fundamental é dado pelos Hinos à Noite. Neles, unem-se a recusa das Luzes burguesas e a busca de Sofia. Esta oposição entre noite e dia é marca romântica de primeira plana. Ainda em Fitzgerald, tanto no Great Gatsby quanto no Tender is the Night, temos o delírio em busca de paz e tranquilidade, só garantidas no interior do sonho e da escuridão. Os Hinos à Noite estão embebidos de erotismo e volúpia. Aliás, para Novalis, num de seus “Fragmentos”, “a religião cristã é a verdadeira religião da volúpia. Nada nos estimula mais a amar nosso Deus do que o pecado. Mais nos sentimos pecadores, mais somos cristãos. O pecado, como o amor, só têm como razão de ser na união absoluta com a divindade” (Fragmento III). Esta tese vem de Lutero. É o famoso “Pecca fortiter”, da carta escrita pelo Reformador a Melanchton (1-09-1521) : se existe a Graça divina, e se o cristão nela acredita, e não vê nela apenas uma fábula, logo, ele deve saber que Deus não salva pecadores inexistentes, mas reais. É preciso, pois, ser pecador, e pecar fortemente. Mais firmemente, entretanto, vêm a fé e a esperança no Cristo, “o vencedor do pecado e da morte!”.

O sexto Hino de Novalis acaba com a evocação direta do Cântico dos Cânticos : “Desçamos rumo à noiva, rumo a Jesus Cristo, o Bem amado. Coragem, o entardecer tomba sobre os corações amantes e piedosos. Um sonho, quebrando nossas cadeias, nos mergulha no seio do Pai”. Trata-se da antiga alegoria, já mencionada por mim, do amor entre a Igreja e o Cristo, unio mystica ou connubium mysticum. Avni [16] coloca em paralelo os versos de Novalis e os dos Cânticos. Entre muitos, vejamos os seguintes : “terna amorosa – gracioso sol da Noite– … reduzido numa substância aérea, eu misturo meu ser no teu, numa união mais íntima, para que dure eternamente a nossa noite de nupcias” (Canto I). E depois : “Teus sóis possuem olhos amigos, que me reconheçam ?” (Canto IV). Nos Cânticos : “Quem é aquela que surge….clara como o sol?”. “O que foi santificado pelo contacto amoroso escoa, num estado fluido e sutil, por canais subterrâneos que o arrastam para um outro mundo e o misturam, como um aroma impalpável, à substância de seus mortos, bem amados”. (Canto IV). Cântico : “Tu és …como a água viva”. Se fossemos comparar todas as passagens dos Hinos novalianos esgotaríamos mil e uma noites. Desejo finalizar, apontando a ruptura desse imaginário com a filosofia das Luzes, o que deu início ao pensamento mágico romântico, hoje banalizado e reduzido a produto comercial, produzindo lucro para charlatães.

Para aquilatar o abismo entre esse reavivamento dos Cânticos dos cânticos e a filosofia das luzes, basta que se indique, primeiro, a Flauta Mágica de Mozart : nela, Sarastro é pai das luzes, sábio, enfrentado pela Rainha da Noite, vingativa e odiosa mulher que só promete morte no seu canto. Jean Starobinski mostrou, no belo 1789 ou os Emblemas da Razão, o quanto a ópera é dominada pela figura masculina, numa retomada intelectual e metafísica que põe o homem como superior à mulher, esta última sendo uma criança (Pamina) ingênua a ser educada por Sarastro e por Tamino. O romantismo valorizou a mulher como agente, bom ou mal, mas deu-lhe a primeira autonomia moderna, contra o pensamento aristotélico que a definiu como homem inacabado.

Há um movimento plagiotrópico, termo cunhado por Haroldo de Campos, que vem dos mais antigos poemas hebraicos e greco-latinos, até o romantismo filosófico e poético. Vimos a insistência de Novalis no sol escuro da noite, e notamos que as imagens solares são extraídas do enlace amoroso, posto no Cântico dos Cânticos. Ocorre um vínculo perfeito entre o imaginário onírico de Shakespeare, visto como “bárbaro” pelos filósofos do século 18, especialmente por Voltaire (Diderot é exceção neste juízo negativo) e o romantismo. Não por acaso, o pensamento romântico foi o que mais ajudou a reabilitar o poeta renascentista inglês. No caso do Cântico dos Cânticos, o tema do desencontro entre amada e amante, e o encontro num leito onde se dorme (dormir é um modo de morrer), repercute em Romeu e Julieta, trazendo figuras mais tarde assumidas pelos românticos, em especial por Novalis.

Lembremos o Cântico : “Em meu leito, pela noite, procurei o amado de minha alma. Procurei-o e não o encontrei”. A última frase constitui uma anáfora importante “ : “Procurei-o e não o encontrei”, logo adiante. Tendo agarrado o seu amor, Sulamita pede às filhas de Jerusalém : “não o desperteis, não o acordeis, até que ele o queira”. Tomemos Romeu e Julieta : “se o amor é cego, ele concorda melhor com a noite. Vem noite severa, tu, sóbria matrona, toda vestida de negro, ensina-me a perder uma partida já ganha”. E mais : “Vem, noite; – vem Romeu, tu dia na noite”. O grito doloroso de Julieta ecoa pelo universo : “Vem, noite gentil …. dá-me Romeu; e quando ele morrer, toma-o e corta-o em pequenas estrelas, e ele tornará tão bela a face do céu, que todo mundo se apaixonará pela noite, e não mais dirigirá orações ao sol brilhante”. Há um encontro, em Shakespeare, entre o erotismo poético de origem grega e bíblica. Se acreditarmos em Diógenes Laércio, Platão escreveu um poema para um amante seu, morto muito jovem, cujo nome era Astro: “Admiras os astros, meu Astro. Queria ser o firmamento celeste, para possuir todos os seus olhos para te observar! Outrora brilhavas entre os vivos como a estrela da manhã. Morreste, mas brilhas entre os mortos como a estrela do anoitecer”.[17]

Em Novalis, o amor impossível, nostalgia do que poderia ter sido, desejo de união infinita, une-se à fuga da claridade, tornando-se culto erótico da morte : “É na morte que o amor transforma-se em mais doce; para o amante, a morte é uma noite nupcial, um segredo de suaves mistérios”. Este imaginário se desgasta, e se torna frio e retórico, no músico Wagner. Em Tristão e Isolda pode-se ouvir : “Para quem contempla amorosamente a noite da morte; para quem ela confiou seu profundo segredo; para tal homem, as mentiras diurnas, glórias e honra, poder e fortuna, com todo seu brilho soberbo, se dissipam como vã poeira de sóis….Nas quimeras derrisórias do dia, só uma aspiração lhe resta… o desejo da santa noite, onde, desde toda eternidade … o êxtase amoroso o faz estremecer”.[18]

Se fôssemos percorrer o itinerário que vem do Cântico dos Cânticos até Novalis e Wagner, passando pelos interpretes alegorizantes do poema na Idade Média, e pelo seu uso poético em Shakespeare, diríamos que os seus avatares seguem o nascimento da subjetividade moderna, um dos problemas mais graves da filosofia contemporânea. Preferi seguir o caminho das interpretações do texto bíblico, desde as que mostravam uma identidade cosmológica e lógica entre o cantor, o interprete, a natureza, o conhecimento e a imaginação, até o racionalismo clássico, com Spinoza, que nega tal identidade. Daí, seguimos a interiorização do cosmos, desde a saída do antigo lugar alegórico, o mundo lisível pelo signo externo, até o mundo do sujeito, onde tudo se passa pelo simbolo. Hegel chamou a nostalgia infinita de união, baseada na subjetividade, de simples loucura. Mas Hegel é o homem que definiu limites para as artes e para a sensibilidade. Mesmo saboreando a música, ele escolheu Palestrina, Durante, Lotti, Pergolesi, Gluck, Haydn, Mozart porque, segundo ele, “a quietude da alma não se perde nas composições daqueles mestres. A dor, neles, se exprime certamente. Mas ela é sempre dissolvida, a clara proporção equilibra-se entre os extremos, tudo permanece reunido em formas contidas e prontas, e assim o júbilo nunca degenera em tumulto desenfreado, e o próprio choro proporciona a mais tranqüila pacificação”.(Estética)

O Cântico dos Cânticos ensina, hoje e sempre, que a pacificação idealista é impossível. O desejo dos amantes, como diziam os mestres medievais, nunca se apaga, sempre se reforça, ao infinito. É o que diz a Sulamita, no ponto mais profundo do poema : “Grava-me, como um selo em teu coração, como um selo em teu braço; pois o amor é forte, é como a morte. Cruel como o abismo é a paixão; suas chamas são chamas de fogo, uma faísca de Javé. As águas da torrente jamais poderão apagar o amor, nem os rios afogá-lo. Quisesse alguém dar tudo o que tem para comprar o amor….seria tratado com desprezo”.

Aberta a chaga da subjetividade moderna com o seu distanciamento diante da natureza, não há retorno possível. Sem Deus, e sem esperanças de imortalidade, somos jogados num mundo onde a inquietude cresce sempre mais, desconhecendo saídas. Baseando-se no trecho acima dos Cânticos, sobre a crueldade amorosa, Camões gerou os agora banalizados versos sobre o “contentamento descontente”, mas também o espantoso poema sobre Eco, apaixonada por Narciso, onde o escritor, falando de si mesmo, lembra que “os olhos que vivem descontentes, descontente o prazer se lhe afigura”. E por que ? Responde o vate : “… se o amor não se perde em vida ausente, menos se perderá por morte escura; porque, enfim, a alma vive eternamente, e amor é afeito d’alma, e sempre dura”. Esta certeza não abole o pêndulo entre paz e inquietude, mesmo nos místicos mais elevados do cristianismo. Quem duvidar, leia as páginas lancinantes de Santa Tereza de Jesus, nas Meditações sobre os Cânticos dos Cânticos, não por acaso censuradas pelos diretores espirituais, e hoje só acessíveis devido ao acaso, que recolheu manuscritos não incinerados daquele poema em prosa. [19]

Os místicos autênticos conhecem a “noite escura da alma”. Todo filósofo digno deste nome, enfrenta o problema do sujeito e da sensibilidade, sobretudo no campo da paixão. Neste prisma, o Cântico dos Cânticos é um convite poderoso ao encanto e ao pensamento, sem rupturas entre estes dois traços antropológicos fundamentais. Afinal, mesmo Hegel admitia que a palavra “sentido” (Sinn), básica para se entender o ente humano, possui…dois sentidos : o lógico e o carnal. A filosofia moderna, cujo ápice encontra-se no século 18, concentrou-se no lógico. A filosofia romântica mergulhou na carne. A busca do equilíbrio entre os dois lados é tensa. A poesia ensina os teólogos, os antropólogos, e sobretudo os filósofos, a finura das palavras e das imagens. Para isto, nada mais indicado do que meditar sobre os Cânticos, obra de pensamento e de poesia, atribuída, não sem razões, ao sábio poeta.

Notas

[1] in Studi su Dante . Milano, Feltrinelli, 1995, páginas 261 e seguintes.

[2] Yvonne Batard. Dante, Minerve et Apollon. Les Images de la Divine Comédie. Paris. Les Belles Lettres, 1952, p. 85-86..

[3] Vulgata, ou Biblia Sacra. S.Sedis Apostolicae Typographi Ac Editores, Marietti,1959.

[4] Biblia de Jerusalém. Ed. Brasileira. São Paulo, Paulinas, 1985.

[5] Fontenay, Elizabeth. Diderot ou le matérialisme enchanté. Paris, Grasset, 1981, p. 87-99.

[6] “Omnia in figura”, in Exegese Médiévale. Les Quatre Sens de l’Écriture. Paris, Aubier, 1964, IIe Partie, V.II, p. 60 ss.

[7] A partir deste ponto, estarei seguindo literalmente o belo texto de M.M. Davy, Initiation a la Symbolique Romane. Paris, Flammarion, 1977.

[8] Paraíso, Canto 33. “Virgem mãe, filha de teu filho (…) em teu ventre incendiou-se o amor, por cujo calor, na eterna paz , esta flor germinou”. Cf. os comentários de Ernst Kantorowicks. The King’s two Bodies. Princeton, Univ. Press, 1970. P. 100.

[9] in Studi su Dante . Milano, Feltrinelli, 1995, p. 261 e ss.

[10] Cf. Auerbach, op.cit. p. 207

[11] “Il simbolismo Tipologico nella letteratura medievale”. In San Francesco, Dante, Vico. Roma, Riuniti, 1987, p. 138-139..

[12] L’Art de la Mémoire. Paris, Gallimard, 1982, p. 242-243.

[13] Cf. Chomarat, Jacques. Grammaire et Rhetorique chez Erasme. Paris, Belles Lettres, 1995.

[14 ] Para estes aspectos, cf. Abrams, M.H. The Mirror and the Lamp. Romantic Theory and the critical tradition. N.Y. Oxford University Press, 1971. A citação de Novalis, acima, encontra-se em Roberto Romano : Conservadorismo romântico. São Paulo, Brasiliense, 1981, p. 138-139.

[15] The Bible and Romanticism. The Hague, Mouton & Co. 1969, p. 36 e ss.

[16 ] Diógenes Laercio. Vida , Doutrinas e sentenças dos Filósofos Ilustres. Paris, Garnier Flammarion, T.1,p. 172.

[17 ] Diógenes Laercio. Vida , Doutrinas e sentenças dos Filósofos Ilustres. Paris, Garnier Flammarion, T.1,p. 172.

[18 ] In Santa Tereza de Jesús, Obras Completas, BAC, 1986, p. 421 ss.

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Partindo do Presente, para chegar à razão de Estado
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Muitas pesquisas em neurologia tentam, hoje, refazer a humanidade em novos patamares de perfeição, adiando ao máximo o processo corrosivo imanente à vida. Cito Jonathan Moreno em Mind Wars (1). O trabalho é feito a partir de um núcleo significativo, a agência norte-americana DARPA (Defense Advanced Research Projects Agency). O primeiro ponto a ser notado é a relutância ou medo dos cientistas e demais envolvidos nos projetos, em tratar abertamente o tema da pesquisa. O segredo, essencial na razão de Estado, penetra até o mais comezinho procedimento dos laboratórios envolvidos. O velho conflito entre a transparência democrática e os cuidados com a segurança do Estado ressurgem a cada passo do estudo proposto por Moreno. Mesmo assim, grande quantidade de informação, diz o autor, está ao alcance do público.
Assuntos como terrorismo são de difícil abordagem quando se trata de conversar com os pesquisadores. É singular o contraste entre o seu mutismo e a imensa quantidade de entrevistas dadas por eles mesmos e funcionários do governo após o 11 de setembro. Quando as televisões e demais órgãos midiáticos inundam olhos e ouvidos da população com alertas sobre armas biológicas ou químicas tal silêncio inquieta. Moreno exemplifica: ele integrou em 2005 uma comissão de aconselhamento destinada ao governo, sobre biodefesa e medidas contra atentados no setor. Os Proceedings of the National Academy of Sciences publicou um artigo descrevendo o potencial envenenamento do leite com botulismo. No entanto, ainda não se conseguiu fazer uma análise coletiva sobre os problemas éticos relativa à aplicação de saberes no setor.
O mesmo ocorre em outros campos da neurociência, sobretudo quando a segurança nacional é implicada.

A revista científica Nature dedicou uma sequência de análises sobre o problema com o título de “Silêncio dos neuro-engenheiros”. Os pesquisadores, diz a revista, deveriam se preocupar com os motivos dos que financiam seu trabalho. Um trecho do editorial é eloquente quando se refere à DARPA : “a agência quer criar sistemas que poderiam unir mensagens como imagens e sons, entre cérebros humanos e máquinas, ou mesmo entre humanos e humanos. No longo prazo, os militares poderiam receber comandos via eletrodos implantados no cérebro. Eles também poderiam ser conectados diretamente ao equipamento de controle. Podem os neuro-cirurgiões apoiarem tais finalidades?”. Finaliza o editorial: “a sua pesquisa poderia efetivar tais fins, logo eles têm o dever de discutir suas opiniões, respondendo perguntas feitas pelos que se levantam contra o desenvolvimento de semelhantes tecnologias”. Mesmo assim, finaliza o autor do texto, muitos pesquisadores relutam em debater “o uso potencial militar daquela tecnologia, dizendo que o alvo da Agência, a interface entre cérebro e máquina ainda está muito longe de ser alcançado”.

A revista, ao ouvir os pesquisadores, teve algumas respostas padrão às suas interrogações. Tres cientistas do Instituto de Tecnologia da Califórnia dizem que muitas tecnologias militares trazem resultados sociais positivos. Logo, as tecnologias particulares devem ser abordadas segundo méritos próprios, não pelo seu financiamento. Outro cientista ligado à DARPA nota que milhões de pessoas com defeitos físicos podem ser beneficiadas pelos novos tipos de prótese. Tal vantagem vale mais, pensa o cientista, do que os debates sobre a origem e a qualidade dos financiamentos.

Dessa escuta dos pesquisadores, Moreno deduz algumas coisas. A primeira, é que eles têm, em geral, uma compreensível relutância em prejudicar os elos entre pesquisa e fontes de financiamento. Porque tornar públicas coisas embaraçosas para quem arca com os custos da pesquisa? Tal problema não reside apenas nas neuro-ciências. A segunda, é que seria preciso clareza quanto aos procedimentos, hipóteses, técnicas, o que supõe, da parte do público e dos que não fazem a pesquisa, acesso a informações que devem ser sigilosas e das quais não se tem, quando não se trabalha naquela pesquisa, certeza do que é um ponto sensível ou não. A maioria das pesquisas, depois do 11 de setembro, estão em situação similar, pois tocam em assuntos secretos.

Secretos os procedimentos na área da física, da química, da biologia e adjacências. Mas, adianta Moreno, à diferença dos micróbios ou fissão nuclear, fazer coisas no cérebro pertence a um terreno ainda mais sensível. Pessoas que o pesquisam e desejam nele intervir trazem um problema pessoal, no seu corpo e no de seus sujeitos de pesquisa. Que se combine esta percepção com teorias conspiratórias sobre experimentos secretos patrocinados pelos governos e temos a receita para a cautela dos cientistas e técnicos que tentam influenciar o cérebro, sobretudo quando se trata de analisar o fundamento ético de suas elaborações.
Assim, Moreno examina o funcionamento da DARPA para definir padrões de operação científica, alvos e meios. Ele começa com uma citação exemplar do Plano Estratégico da mesma agência, escrito em fevereiro de 2003, tendo em vista a Defesa Nacional. “As implicações de longo alcance de se conseguir o jeito de transformar pensamentos em atos, se isto puder ser desenvolvido, são enormes: imagine-se guerreiros norte-americanos que só precisam usar o poder do pensamento para fazer coisas à grandes distâncias”.
Moreno começa a explanação apontando a paranóia que penetra a mente do grande público sobre as experiência governamentais em pacatos cidadãos comuns. No cenário, vem à memória as crenças em ETs, cientistas loucos, Frankenstein, espíritos de outro mundo e demais relíquias ou dejetos da cultura romântica contrária à ciência moderna. Tudo isso é verdade, anui o autor, no entanto, existe um núcleo de verdade naquela insanidade. Diríamos com Polonio, sobre Hamlet : “Though this be madness, yet there is method in’t”. Em todo caso, não se trata de uma paranóia vivida apenas nos EUA, mas no mundo. Moreno relata que, ao fazer conferências no Paquistão, um psiquiatra local lhe disse que as queixas de pacientes que se dizem vigiados, no cérebro, pela CIA, são grandes em número.
E muitas formas antigas de controle mental hoje estão superadas diante das melhorias, se o termo vale aqui, na prática dos soldados, com as interfaces do cérebro e máquinas, além das drogas usadas para desarmar os inimigos, etc. Em 2003 o Diretor da DARPA, Tony Tether, em relatório para uma comissão do Congresso diz explicitamente que o alvo é explorar “as ciências da vida para fazer o guerreiro mais forte, mais alerta, mais resistente, e mais apto a curar”. O programa da DARPA intitulado CAP (Continuous Assisted Performance), continua ele, “está investigando meios de prevenir a fatiga e fazer com que os soldados fiquem acordados, alertas, e efetivos por mais de sete dias, sem sofrer nenhuma deteriorização mental ou efeitos físicos e sem usar nenhuma das gerações usuais de estímulos”. A função da DARPA é acelerar inventos, diminuindo a distância temporal entre um e outros, para que eles sejam aplicados aos soldados. Moreno ironiza um tanto ao dizer que cerca de 90% das iniciativas patrocinadas pela DARPA falham (como o caso, parece anedota, do elefante mecânico que deveria auxiliar na guerra do Vietnã). Como diz um funcionário da Agência, a DARPA “tenta fazer coisas que são consideradas impossíveis e achar um meio de fazê-las acontecer”.
Em 2006 a Agência apresentou a seguinte agenda para financiamento governamental: “Aplicações da Biologia nas aplicações de Defesa”. Os itens principais eram os seguintes: “abordagens biológicas para manter a performance dos soldados, capacidades e sobrevivência médica em condições duras de combate”. Depois, “abordagens biológicas para minimizar os efeitos posteriores dos ferimentos em combate, bem como recuperar ferimentos e feridas de combate”. Em terceiro lugar, “abordagens para manter a saúde geral das tropas envolvidas em combate”. Análise “biomolecular de sistemas”, “abordagens biomoleculares de motores e instrumentos”, “compreensão dos efeitos no homem de armas não letais”, “tecnologias em micro/nano e acesso não invasivo de saúde, por exemplo, sinais vitais, química do sangue”. “tecnologias que permitam interrogatórios remotos e controle de sistemas biológicos no sistema, em escalas dos órgãos, tecidos, celulares e moleculares, investigação das interações entre forças físicas, materiais e biologia (exemplo, interface entre biologia e magnetismo), novas abordagens matemáticas e computacionais, para caracterizar e estimular processos biológicos complexos, novas tecnologias para reduzir drasticamente a logística para o tratamento médico in loco, sinais avançados para decodificar sinais neurais em tempo real, especificamente os associados com eventos cognitivo relevantes, incluindo redução de erros, e decisões no processo, novas interfaces e planos de sensores para a interação com o sistema nervoso central com o periférico (estruturas corticais e sub-corticais) com ênfase em não invasivas e /ou abordagens sem contacto, novas abordagens para entender e prever o comportamento de indivíduos e grupos, especialmente os que elucidam a base neurobiológica do comportamento e das tomadas de decisão, tecnologias para engenharia de campo em terapias médicas, no ponto de cuidados, como a produção de múltiplas drogas de uma simples pró-droga, ou adaptação de terapias para corpos de massas em amplo espectro, onde surja estresse.
Qual o segredo da Agência DARPA? Não tanto os seus financiamentos, que giram ao redor de 3 bilhões de dólares, mas o uso dos seus intelectuais dedicados à inovação. É importante ressaltar que a DARPA não trabalha com os mesmo alvos da CIA, FBI e outros dedicados à espionagem. Noventa por cento de seus recursos são aplicados em pesquisa universitária de problemas vitais, incluindo o setor médico. Mas ela foi criada em 1958 para reagir aos avanços da URSS no campo dos satélites, a começar pelo mais famoso, o Sputnik. Como suas pesquisas nem sempre cumprem papel relevante em questões de segurança, o Congresso cortou seus recursos em data recente. Sua relativa transparência perto das outras agências, como a CIA, a faz alvo de críticas e relutâncias. Se querem vender algum projeto ao Pentágono, devem convencê-lo de que em algum ponto ele trará benefícios nos campos de batalha ou às redes de espionagem. Ela conseguiu isto com o projeto Staelth Fighter, um avião de combate ultra-sofisticado, mas ao custo de muito segredo, num dos projetos mais sigilosos do século vinte. Debates e denúncias sobre a possível quebra dos seus segredos movimentam a midia e setores políticos norte-americanos até hoje.
Algumas cifras: o orçamento do Departamento de Defesa é de aproximadamente 68 bilhões de dólares. Mas tal número não inclui as pesquisas pagas pelo Pentágono, ou pelo “orçamento negro”, o qual, em 1990 era estimado por volta de 30 bilhões de dólares. Não se pode ter certeza se a CIA trabalha com pesquisas sobre o cérebro. O certo é que a DARPA é a única agência governamental interessada diretamente em tal sentido.
Elementos essenciais: a doutrina e a prática da defesa nacional, nos EUA, implicam a colaboração de civis e militares. O que dá uma eficácia aos dois lados, a guerra e a saúde. Hoje, melhorias no conhecimento de certas doenças, como Parkinson e Alzheimer devem muito às pesquisas da DARPA. No caso do controle do cérebro, no entanto, a liderança é assumida pelos militares, verdadeiros visionários no setor. Algumas pesquisas tratam de assuntos bivalentes, civis e militares. Assim, as dedicadas à melhoria da memória e escaneamento do cérebro à distância (fluxo sangüíneo cerebral captado à distância, por meio de aparelhos, que medem o grau de estresse do cérebro do combatente). Pergunta : até onde é possível e permitido eticamente “melhorar” as faculdades humanas, tanto no campo intelectual quanto no emotivo? Quais ajustes serão feitos na vida social e dos indivíduos? Quais riscos, em longo termo, virão para as sociedades que caminharem naquele rumo? E o uso dos instrumentos, além dos fármacos, até onde podem ser assumidos sem danos para a estrutura somática e anímica das sociedades ? E isto, sobretudo porque eles agem no sistema nervoso, mesmo em meios não estéticos, como “armas não letais” e acústicas quase desapercebidas que seriam, em tese, “moralmente superiores” do que as letais, e serviriam para acalmar rebeliões, etc., apresentam elementos químicos ainda não plenamente testados e que não foram ainda discutidos e sancionados pelo ordenamento jurídico internacional.
Toda a propaganda dessas pesquisas trazem a promessa e a esperança de que elas ajudarão a manter a paz nas e entre as sociedades. Mas, diz Moreno, o triste fato é que não existe nenhum mercado onde comprar a mercadoria “paz”. A violência tem sido a norma da vida humana, desde o seu início. As novas técnicas poderiam trazer paz, mas também, e notemos o também com toda a sua promessa de pavor, poderiam trazer mais guerras e mais desajustes no ser humano. Aqui, diríamos, muito pode ser discutido a partir das doutrinas de Rousseau, sobre as consequências danosas da técnica e da ciência na vida societária.
A guerra é uma atividade humana sujeita a regras, apesar dos cínicos de hoje. E tais regras nem sempre devem sua origem aos sentimentos humanitários, mas estratégicos e políticos. A começar com a proteção dos próprios soldados, ou civis, em caso de captura pelos inimigos. Na era da neurociência, quais regras devem ser esperadas? A manipulação mental pode ser mais insidiosa e mais eficaz do que torturas e medidas que não são biológicas nem tóxicas, mas permanecem sem muitos exames.
A neurociência tem progredido em número de praticantes e de pesquisas. A Sociedade para a Neurociência, fundada em 1970, hoje conta com mais de 35 mil aderentes. Também ocorreu uma explosão de artigos, livros, etc no mesmo período. Eles implicam saberes em cálculo, biologia geral, genética, fisiologia, biologia molecular, química geral, química orgânica, bioquímica, física, psicologia comportamental, psicologia cognitiva, psicologia perceptiva, filosofia, teoria computacional. Ela é uma ciência do sistema nervoso em toda a sua complexidade. A natureza e o significado das fibras nervosas que se espraiam pelo corpo inteiro, só em data recente começou a ser entendida. A neurociência nasce da integração de todos aqueles campos de estudo e das novas tecnologias para estudar o cérebro em pessoas vivas.
Evidentemente, as questões éticas trazidas pela neurociência são imensas. Elas implicam, entre muitas coisas, habilidades para mudar a função cerebral, com meios químicos, ou seja, potencialmente desregular a própria personalidade dos indivíduos. Mas também podem trazer melhorias nos tratamentos de doenças até hoje tidas como de árduo encaminhamento. Máquinas que captam imagens como a ressonância funcional magnética (FMRI), apresentam a oportunidade não apenas de estudar doenças psiquiátricas, no cérebro em funcionamento, mas também perceber como as pessoas pensam e aprendem, enquanto pensam. Há indícios de que a neurociência poderia ser habilitada para associar experiências subjetivas de nossa vida interior, com eventos objetivos em nossos cérebros. Assim, franqueza e decepção poderão ser medidos , e tal capacidade poderá conduzir, talvez, a detectores instalados no cérebro. As máquinas que fazem a interação com o cérebro podem ajudar a compreender o modo pelo qual o último codifica e integra dados, do sistema que liga o setor sensorial, motor e de memória. Tais avanços podem ajudar muito no tratamento de pessoas com paralisia, esclerose múltipla, e outros problemas.
Por exemplo, estímulos magnéticos transcraniais (TMS) e remédios estão sendo estudados para melhoria possível da cognição, com foco na atenção e na memória. Outros experimentos se ligam à fadiga, sono, etc, em termos de regulação dos mesmos. O problema: um grande número de pessoas devem ser expostas aos medicamentos e máquinas, durante anos, para chegar a alguns resultados. E a dosagem dos avanços também é problemática. Temos, por exemplo, ao lado das melhorias da memória, o fato de que nosso aparelho precisa esquecer dados desnecessários. Há um equilíbrio entre o que armazenamos e o que esquecemos. As melhorias podem desequilibrar a balança e o que teremos? O cérebro não é um órgão comum. Se o modificamos, podemos prejudicar o seu núcleo de personalização. A vida nos oferece obstáculos e desafios, seria prudente interferir na lutam para orientá-la? Deveríamos aceitar que nossa personalidade seja medicalizada e se transforme um objeto de alvos técnicos? Tais questões encontram-se no mais profundo núcleo da bioética, depois da decodificação do DNA por Watson an Crick. Além da bioética, todo esse mundo novo (antevisto por Aldous Huxley, no Admirável Mundo Novo).
A neurociência herda uma história de guerra, segredos de Estado, espionagem, torturas, e toda uma série de ações infernais, desde pelo menos a Guerra Fria, agora sucedida pela guerra ao terrorismo. Em 1950, o Conselho Nacional de Segurança escreveu um documento chamado NSC-68 : United States Objectives and Programs for National Security. A doutrina nele contida dizia que “é obrigatório que, ao construir nossa força, alarguemos nossa superioridade tecnológica por uma exploração acelerada do potencial científico dos Estados Unidos e aliados”. Meio século depois, um pouco mais, o presidente Bush, ao estabelecer a nova Estratégia de Segurança Nacional, nota algo similar: “Inovação nas forças armadas permanecerá em experimentos com novas abordagens da guerra, fortalecendo operações conjuntasm explorando as vantagens da inteligência norte-americana, e assumindo todas as vantagens da ciência e da tecnologia”. O negociante, na alma de Bush, faz com que ele insista no termo comum aos procedimentos dos negócios, “levar vantagem”.
Desde a Segunda Guerra Mundial o complexo militar acadêmico é um elemento das economias, no que tange as pesquisas conduzidas nas universidades americanas. A Associação Das Universidades Americanas avalia que em 2002, aproxidamente 350 Colleges e universidades receberam contratos do Pentágono, sendo 60% em pesquisa básica. Os líderes do MIT tinha contado receber cerca de meio bilhão de dólares em contratos, a universidade Johns Hopkins recebeu 300 milhões de dólares.
O governo federal norte-americano só passou a interferir ativamente quando Roosevelt, na Segunda Guerra, percebeu a real relevância do setor científico e tecnológica nos esforços bélicos. O exemplo mais fácil é o da energia consumida pelo projeto da bomba atômica. Mas virtualmente toda área científica foi conduzida a servir aos fins de Roosevelt e seus auxiliares. Assim, foi dado o compasso do que ocorreu na Guerra Fria. Precisamos retornar um pouco mais no tempo, para entender o processo de criação do Estado de Segurança Nacional.
Em 1947 ocorreu uma torsão na política internacional americana, pois esta potência se tornava a líder, um Estado dominante, mas antes indecisa se deveria usar todo a sua força econômica para assumir a hegemonia planetária. Antes, vigorava o isolacionismo, algo mantido pelo menos desde George Washingnton. Agora, desde Truman, ocorria a mudança de política externa. Os auxiliares daquele presidente, acadêmicos, cientistas, líderes empresariais e financeiros, executaram uma rápida expansão dos poderes federais, sobretudo na área da segurança nacional. O alvo era a URSS, cuja política também unia ciência, técnica, poder bélico. Assim, quase todos os setores de pesquisa entraram na roda desenhada pela segurança nacional. Diz Moreno o seguinte: “assim como a Guerra Civil transformou o caráter doméstico da América, a Segunda Guerra Mundial transformou a face da América mostrada ao resto do mundo”. Os EUA se tornaram um “Garrison State”, na escrita de Harold Lasswell, para descrever uma nação em contínuo conflito. Assim, temos duas faces da política externa, em termos de motivos doutrinários: a primeira, salva a democracia fora dos EUA, contra a URSS. E maio controle do Estado em termos internos. Conservadores norte-americanos temiam que tal controle traria danos à liberdade individual no país, ameaçando a essência norte-americana. Se o segredo e a espionagem se espalhassem, onde ficariam as franquias, a accountability e outros elementos democráticos ? Certos liberais como John Dewey eram ambivalentes sobre o empenho americano na Segunda Guerra, pois temiam as consequências de longo termo trazidas pela militarização dos EUA.
Mas devemos ir mais longe no tempo, se queremos discutir o elo entre ciência, poder de Estado e guerra. Falamos de Francis Bacon na utopia New Atlantis (1627). Alí, o Chanceler da Inglaterra e admirador de Maquiavel e da razão de Estado fala sobre o segredo e o controle dos cidadãos por métodos científicos. Sobre o segredo, diz o sábio personagem da narrativa, “discutimos quais inventos e as experiências devem ser partilhados com o público, e quais não; e tomamos de todos um juramento de segredo (…) de todos os que julgamos aptos a manter o sigilo; alguns dos segredos nós revelamos, de vez em quando, ao Estado, outros não”. Agora as coisas ficam mais complexas, porque, segundo o historiador J.W. Grove, o controle governamental sobre os inventos e experiências não se deve apenas à segurança nacional, mas também ao “domínio comercial e econômico sobre outras nações, especialmente as consideradas potencialmente hostís”. No entanto, pode-se dizer que alguns resultados científicos trazem inequívocos benefícios, como o caso da penicilina, cuja manipulação foi apressada pela Segunda Guerra Mundial.
Aparente paradoxo: ciência e segredo são, pelo menos em princípio, antitéticos. Porque a ciência, se quiser avançar com eficácia, precisa ter ampla disseminação de seus resultados. Ela não pode ser conduzida por inventores de garagem, a exemplo de alguns similares de Bill Gates (aliás, este último se aproveitou e abusou das pesquisas acadêmicas, geradas entre outros no MIT). A ciência exige uma ampla comunidade e especialistas altamente qualificados em áreas discretas. Tentativas de fazer ciência escondido, quase sempre dão péssimos resultados. O segredo também pode ser usado como cobertura para ciência efetivada de modo incompetente, como um meio de evitar a vergonha pública, tanto para o governo quanto para os cientistas. Como sair do paradoxo, visto que segurança nacional e militar é segredo, e nela se encontram os grandes financiamentos para a pesquisa? A comunidade científica perde sua autonomia, base da sua existência, gradativamente. Este é um problema ético a ser axaminado com máxima cautela. Quando se efetiva uma “pesquisa” com o corpo de soldados (voluntários…se tal coisa for possível), como é possível controlar os procedimentos? Por exemplo, ao examinar os experimentos de LSD aplicados aos guerreiros nos anos 1960, o próprio inspetor geral do Exército norte-americano concluiu que, na melhor das hipóteses, a prática foi inconsistente com os pressupostos científicos. Algo pior ocorreu com as vítimas e voluntários do projeto Manhatan no caso das injeções atômicas. E segue-se uma fieira de horrores, em nome da ciência e do segredo. Insisto : muito material pode ser encontrado, nesses campos, para uma reflexão sobre as críticas de Rousseau às técnicas e às ciências.
Alocações de financiamentos para a pesquisa mudam conforme o que o governo considera prioritário. Assim, a partir de 2001 os financiamentos foram postos a serviço do anti-terrorismo, visando as armas químicas e biológicas de destruição massiça. Foram criados oito centros de biodefesa desde 2003, com 350 milhões de dólares investidos. E ocorreu um perigo ainda maior : parte da Lei contra o Bioterrorismo, de 2002, pela primeira vez aprovou que certas drogas, sem teste para efetividade e segurança de seres humanos podem ser aprovadas pelo FDA (Food and Drug Administration). Elas devem ser testadas em dois animais. E pronto. Quem adquire tais medicamentos, visto que eles são produzidos em escala de emergência sigilosa? O governo dos EUA. Assim, elos interessantes surgem entre governantes e companhias farmacêuticas, com lucros ainda mais interessantes.
Entremos no domínio das metáforas, sempre elas, que pretendem dar conta da atividade cerebral. Sendo recente a informação de que o mais simples ato exige a atividade de centenas de milhões de neurônios e de que os mesmos neurônios podem ser envolvidos em muitos atos diferentes, Carl Zimmer (http://carlzimmer.com/articles/index.php) comparou o cérebro em movimento a uma sinfonia fantástica, uma “orquestra de neurônios espalhados pelo cérebro”. Resultado: não é necessário monitorar o cérebro inteiro para achar os neurônios envolvidos em certo ato ou pensamento, mas é possível localizar uma subsérie de neurônios para seguir diferentes ações. Usando a metáfora de Zimmer, precisamos ouvir apenas poucos instrumentos para imaginar qual sinfonia está sendo tocada. Este é o princípio que permitiu os experimentos de interface entre cérebro e máquina com animais. Um pequeno número de neurônios é seguido, talvez uma dúzia, enquanto o animal é treinado a apertar a barra para obter bebida. As atividades dos neurônios são gravadas e depois que a alavanca é desconectada da bebida, o animal aprende que o único jeito de conseguir bebida é pensando em pressionar a barra.
Os modernos mecanismos de imagens tornam possível indicar uma acesso mediado para os próprios pensamentos. Assim, é possível criar relações simbióticasentre seres humanos e suas criações cibernéticas. Tais relações podem incluir arranjos ambientais ou se estender à conjunção física entre humanos e máquinas. O termo “organismos cibernéticos”, ou “cyborgs” foi cunhado por dois cientistas da NASA em 1960, tendo em vista a descida na Lua, preparada no período Kennedy (Guerra Fria) e finalizada em 1970. Mas as teorizações sobre o fato vinham de bem antes. (2)
Qual o sonho dessas pesquisas? Correlacionar a atividade neural com a intencionalidade subjetiva. Cada neurônio fornece um sinal elétrico passível de ser detectado, mesmo quando em isolamento. Monitorar bilhões de neurônios, para saber qual está envolvido em um pensamento particular é impraticável. Mesmo ações simples, no entanto, requerem a atividade de centenas de milhões de neurônios, e o mesmo neurônio, como foi mencionado, pode estar envolvido em diferentes atos.
Em 2005 as maiores universidades e instituições militares dos EUA exploravam vias para que pessoas pudessem usar “esqueletos externos”, ou seja, mecanismos que substituiriam suas pernas, joelhos, braços, etc. E também para aumentar a agilidade dos mesmos instrumentos naturais. A DARPA tem comom um eixo fundamental de pesquisas conseguir a interação de cérebro e máquina, o Human Assisted Neural Devices Program (Hand) Programa de Dispositivos Humano Neurais Assistidos. Um deles, explica o major do Departamento das Ciências, toma uma área que seria compreendida por estudos multidisciplinares, O programa criaria novas técnicas para aumentar a performance humana, por meio de códigos não invasivos de acesso ao cérebro em tempo real e integrado no dispositivo periférico ou sistema operacional. A DARPA investiu 24 milhões de dólares no programa de interação cérebro máquina.
Um cenário de ficção científica: (3): um exército de robôs capaz de movimentos precisos, cada um movido por um indivíduo a centenas ou milhares de kilômetros de distância. Tais automata poderiam realizar tarefas árduas para humanosm mas úteis em táticas arriscadas. Controladas por gente, teriam o benefício da criatividade, cuja falta prejudicaria o mais avançado andróide. Num monitor, o “navegante” enxerga o que o robô vê, e, por outros mecanismos, o robô responderia aos comandos no mais rápido tempo porque ler ia as intenções do operador, os seus próprios pensamentos e não apenas responderia aos músculos do operador por meio de um aparelho mecânico. Já é tecnicamente possível transmitir idéias sobre movimento do pré motor cortex (situado na frente do cortex motor) para um dispositivo mecânico. Um neurobiólogo da Universidade Duke implantou contactos no cortex motor de um macaco e o conectou a um computador que controla um braço robótico. Depois os próprios braços do macaco foram presos para baixo, e um pedaço de laranja foi posto na extremidade do braço robótico, perto da boca do macaco. O motor de neurônios do macaco brilhou quando ele tentava pegar a laranja, movendo o braço via computador. Gradualmente o macaco aprendeu como controlar o braço com maior precisão. Então ele entendeu não precisar mover seu próprio braço para fazer o braço robótico se mover, mas poderia fazer o dispositivo trabalhar, só pensando sobre apanhar a laranja. Seus próprios braços permaneceram como simples apêndices.
Um outro grupo de cientistas mostrou que a intenção pode ser lida diretamente da atividade no cortex parietal. Fios foram inseridos num cortex parietal de macaco, e antes que eles tocassem realmente um cursor para conseguir um premio, sua atividade neural no “planejamento” de tocar o cursor foi gravada. O premio era, então, variado e gravados as espectativas respectivas para cada premio eram feitas, traduzidas da ativação neural. A equipe hoje é capaz de predizer qual premio o macaco espera ganhar, baseada nos dados que ela tem sobre quais neurônios brilham e seu cérebro. Neste caso, os pesquisadores não detectavam os neurônios ligados ao movimento do músculo, mas as células que correspondem ao planejamento do movimento. Segundo tais definições, eles são capazes de ler os pensamentos do macaco.
Na universidade da Califórnia, uma pesquisa financiada pela DARPA tenta substituir regiões cerebrais danificadas com um microchip que irá unir mensagens ao seu destino último, sem mediação normal. O impresso no chip é baseado no circuito de fatias do hipocampo de um rato. Os mais otimistas dizem que a coisa funcionará um dia, com tratamento à base de cilício para desordens neurológicas como o mal de Alzheimer. Assim, pode ser predito que, com as próteses neurológicas, soldados podem ser mais fortes, com braços robóticos e pernas, e os pilotos poderão controlar veículos apenas com a força do pensamento intencional. Sensores que permitem feed back do robô para o homem será crucial para informações sobre ambientes hostís. Ainda hoje já existe um robô computadorizado chamado RHex (rex) que poderá controlar o cérebro de um rato. Uma companhia chamada Cyberkinetics recebeu aprovação para implantar chips no cortex motor de quadriplégicos para que eles possam controlar o um mouse de computador. Assim também em casos de epilesia, etc. Centenas de pessoas já usam neuroestimulantes internos para epilepsia, coisa inimaginável antes.
As técnicas mencionadas têm problemas práticos. Antes dos implantes, há um imenso trabalho biológico a ser feito, cuja extensão pode ser indefinida. É perigoso colocar implantes em seres saudáveis. Os primeiros neuromotores foram associados a várias mortes, taxas de infecção são elevadas. Ainda não existem dispositivos que possam captar atividade cerebral com a precisão almejada pela DARPA e pelos exércitos ou médicos.
Além disso, os braços robóticos (ou outros membros) devem responder ao cérebro. A interação cérebro-máquina deve ser uma rua com dois sentidos, não apenas um eletrodo passeando por um tecido da mente, empurrando certa máquina. Na Duke university estão pesquisando um “feedback tátil”, onde o braço do robô pode identificar quando ele contactou uma outra superfície e remete sinais elétricos ao cérebro, regiões sensórias e estimuladoras. Diz o professor Miguel Nicolelis, “o truque é dar o feedback certo e assim o cérebro do macaco irá incorporar o robô como se ele fosse parte de seu corpo”. A chave para conseguir isso pode estar na nanotecnologia, que proveria o que Nicolelis chama “links diretos entre os tecidos neurais e máquinas”. É bom recordar que Nicolelis é um brasileiro que, na sequência do “Brain drain”, trabalha nos EUA em pesquisas pioneiras. Seria interessante, visto que o curso é sobre corrupção, que os estudantes verificassem o significado do Brain drain nas relações internacionais.
Uma equipe do Downstate Medical Center no Broklin, financiada pela DARPA, implantou eletrodos num cérebro de rato e ordenou que ele subisse pelos caminhos por ela definidos (labirinto, rampas, árvores, etc), por impulsos endereçados diretamente por centros cerebrais. Os pesquisadores podiam “ver” pelos olhos do rato, os caminhos, etc., num lap top ligado a ele. Tal experiência, no entanto, foi publicada mais como curiosidade científica, sem empolgar a comunidade. Mas o setor da defesa se interessa por semelhantes experimentos, no caso, por exemplo, de usar bichos como detectores de bombas, com sua posterior limpeza. Um cientista elogia o rato, “animal com 200 milhões de anos de evolução atrás de si. Ratos possuem uma inteligência nativa que é melhor do que toda inteligência artificial”. Fica a pergunta: se é permitido controlar mentes de ratos, e dar-lhes ordens, quais limites deveriam ser obedecidos nos casos de seres humanos? Além disso, uma questão ecológica: pesquisadores conseguiram “dar ordens” a moscas de frutas, que prejudicam as colheitas. Ótimo. Mas o desiquilibrio na ordem dos seres, quais consequências trariam para o todo do ambiente? Todas essas questões levam a problemas éticos discutidos pela filosofia desde a sua aurora. Elizabeth de Fontenay tem um livro sobre o tema, chamado justamente “O silêncio dos animais” (4). Tenho um exemplar em minha casa e posso emprestá-lo aos interessados. A autora discute o problema do Logos, que separaria os humanos dos não humanos. Ela cita uma frase candente de Levi-Strauss: “o que fazemos aos animais é indício do que fazemos ou faremos com os humanos”. A frase não é exatamente esta, mas o sentido é tal, quem ler o volume a encontrará. A própria relação dos povos dominadores antigos, gregos e romanos, mostra que a linha do logos é uma fronteira imaginária que dividiria seres “superiores” e “inferiores”. A onomatopéia posta na palavra “barbaros” é prova. A filmografia traz interessantes pontos de vista sobre o tema. Basta recordar Blade Runner de 1982 ou a filmagem de “Eu, robô”. Se é possível controlar criaturas cujas partes são animais, de um lado, e máquinas, de outro, seria permitido controlar seres humanos acoplados a máquinas? A companhia Nippon Telegraph & Telephone criou uma experiência com correntes elétricas, na qual um ser humano é dirigido, irresistivelmente, a caminhar para a direita, quando ele desejava ir para o sentido oposto. A justificativa da companhia é que ela queria gerar um programa de ensino de ballet para cumprir tarefas dificeis. “É como se fosse certa mão invisível que fosse posta dentro do cérebro”. Quem, no ocidente, ignora a famosa “mão invisível” de Adam Smith, que orientaria o mercado para o tom harmônico apesar da anarquia dos desejos e interesses individuais?
Além desse aspecto direcional, existe a tentativa de aumentar a inteligência dos seres humanos acoplados a máquinas. Máquinas ainda não adquiriram os meios para responder em tempo certo a situações não previsíveis. Ainda a filmografia ajuda a entender este ponto, como no caso de Kubrick, no Dr. Strangelove. Esta é uma preocupação da DARPA. Trata-se do ideal da computação de um perfeito sistema cognitivo e maquinal. Isto é o problema antigo do automatismo. Spinoza distingue do péssimo automatismo, o que é gerado pelo domínio do corpo sobre a mente e o correto, que define o domínio da mente. Quando aprendemos a calcular bem, o fazemos sempre, automáticamente. O mesmo quando aprendemos a bem nos comportar. Este automatismo é um dos maiores problemas da ética: uma vez automatizado um valor, pensamento ou procedimento, é quase impossível mudá-los. Assim, a idéia de homens máquina sempre foi um desafio para os pensadores. Os românticos do século 19 viam nesta antropologia, cujo ápice ocorreu com o livro de La Mettrie no século 18, intitulado justamente “O homem máquina”, definida por Descartes e seus seguidores. Automato é um artefato que move a si mesmo, o autômato indica aparelhos que imitam os movimentos de um ser vivo, por meio de um mecanismo interior. Descartes e La Mettrie, consideram o ser vivo como um autômato (animal-máquina), sistema que contem em si as fontes de sua determinação. Leibniz considera “cada corpo orgânico de um ser vivo como uma espécie de máquina divina ou autômato natural que ultrapassa infinitamente todos os autômatos artificiais” (Monadologie).

Horst Bredekamp no livro Estratégias Visuais de Thomas Hobbes, o Leviatã como arquétipo do Estado Moderno, (5) discute a produção imagética do Estado e a imagem do célebre frontispício. O autor expõe a gênese das figuras utilizadas pelo filósofo e as suas fontes nas teorias opticas, na retórica, e nas tradições místicas, elementos que integram a imagem do Estado enquanto força que domina os indivíduos. Seu mote encontra-se na segunda parte do Leviatã : “A causa final, fim, ou desígnio dos homens (que naturalmente amam a liberdade e o domínio sobre os outros) na introdução daquele controle sobre si mesmos, no qual os observamos viver nas repúblicas, eles podem prever a sua própria preservação, e uma vida alí com maior contentamento; ou seja, colocando-se eles for a da condição miserável da guerra que segue, conforme mostrado, as paixões naturais dos homens quando não existe um poder visível para mantê-los no respeito, e prendê-los pelo medo da punição pela ação de seus pactos, e observação daquelas leis da natureza postas nos capítulos 14 e 15” (Leviatã, Segunda Parte, Of Commonwealth).
Hobbes, argumenta Bredekamp, inicia a moderna teoria do Estado a partir da optica, matéria que estudou durante anos e inseriu em sua obra principal com figuras tão cuidadosamente escolhidas que só podem resultar de estratégias visuais. O autor observa o De corpore (1655), onde Hobbes desenvolve sua teoria das marcas e sinais. As marcas ajudam a memória, os sinais definem-se por sua publicidade. Eles comunicam assuntos e podem dar inicio a ações. Bredekamp dá como exemplo de um sinal público o colapso das Torres Gêmeas em 11 de setembro. O sinal do Estado encontra-se na sua unidade. O contrato que o forma é mais do um acordo, pois trata-se de uma união real de pessoas (in personam unam vere omnium unio). Com ele, as vontades são reduzidas a uma só (ut unus homo vel unus coetus Personam great uniuscujusque singularis, utque unusquique auctorem se fateatur esse actionum omnium, quas egerit Persona illa, ejusque voluntati et judicio voluntatem suam submitteret).

Mas fracassa a tentativa de Hobbes, visto que o sistema mecânico repousa sobre um princípio de organização material cuja informação constitutiva assegura a estabilidade (no caso do Leviatã, a política) mas não as transformações. Quanto à informação necessária à geração ou corrupção, degradação ou complexificação, ela só pode ser externa. (6) Como também em Descartes, a máquina humana é governada externamente pela alma e se degrada por causas externas, físicas, diretamente ligadas à res extensa.

Para Leibniz, ao contrário, existe uma indissociação do psíquico e do físico nos seres vivos e, neles, ações e reações são atribuídas à uma informação imanente e retroativa, o que Leibniz chama “enteléquia” (en telos) ou forma da alma, que lhe permite operar como uma “autômato espiritual”, como um ser independente da informação externa. “Se o corpo é uma substância e não simples fenômeno como o arco íris, nem um ser unido por acidente ou agregação como um monte de pedras, ele não poderia consistir apenas na extensão, sendo preciso conceber algo chamado forma substancial e que responde de certo modo à alma” (Leibniz, Carta a Arnauld du 14.07.1686). Assim, todo corpo possui um conatus interno, que não lhe vem exclusivamente de forças exteriores. Cada mônada possui uma estrutura na qual se inscreve sua história, um verdadeiro sistema autônomo e automático. A mônada, assim, dotada de impulso interno, “não tem portas nem janelas” porque “naturalmente nada nos entra no espírito de fora, é um péssimo hábito que temos, de pensar como se nossa alma receberia algumas espécies mensageiras e como se ela tivesse portas e janelas” (Discurso de Metafísica, XXVI).

A mônada se organiza como percepção. Ela não percebe apenas a informação local de seu meio ambiente, mas registra de maneira confusa a totalidade dos dados do mundo e mantém na memória todas as mudanças percebidas. Como indivíduos, somos receptivos ao conjunto das condições ambientes, embora tal recepção seja vaga e imperfeita. “As percepções de nossos sentidos, mesmo quando elas são claras, devem necessariamente conter algum sentimento confuso, pois como todos os corpos do universo simpatizam, o nosso recebe a impressão de todos os demais, e embora nossos sentidos se relacionem ao todo, não é possível que nossa alma possa atingir a tudo em particular; é por isso que nossos sentimentos confusos resultam de uma variedade de percepções que são totalmente infinitas”. Assim, adianta nosso comentador, devem existir formas de percepção inconscientes, subliminares, que completam a percepção regional consciente. Aliás, toda percepção só pode se compreender com o modelo da percepção da infinitude dos pequenos barulhos do mar, que no entanto são percebidos apenas no único ruído de uma vaga.

A mônada percebe os eventos externos (representação interna) sem que o externo imprima nela sua imagem. Assim, a atividade cerebral perceptiva, segundo Leibniz, não é comparável à inscrição de um traço de informação , mas se parece mais à vibração que provoca um som: “seria preciso supor que na câmara escura haveria uma tela para receber as espécies, que não fosse fechada no seu panejamento, mas cheia de pregas, representando os conhecimentos inatos: que ademais, a tela ou membrana sendo tensa, tenha um tipo impulso ou força de agir, e uma mesmo uma ação e reação acomodadas tanto às pregas passadas quanto à novas impressões das espécies. E esta ação consistiria em vibrações ou oscilações, como vemos numa corda tensa quando é tocada, de modo que ela faria um som musical”. (Nouveaux essais sur l’entendement humain, II, 12,1). Cada mônada, na qual ressoa a informação universal, pode ser apreendida como um espelho, ou como expressão e modelo reduzido do universo, porque nela está contida a imagem, o eco, o sinal da totalidade das outras mônadas finitas. “Toda substância individual exprime o universo inteiro ao seu modo e sob uma certa relação, por assim dizer, o ponto de vista do qual ela olha” (Carta a Arnauld 14.07.1686)

Vejamos uma “tradução” moderna de algo similar ao que propõe Leibniz para o automatismo do ser vivo e consciente. Em 1930 Alan Turing definiu o conceito de computabilidade. Ele criou a “máquina Touring”, apta a descrever suas próprias operações. Num sumário fornecido pela DARPA, “dadas suas aptidões para processar conhecimento e refletir sobre seu próprio comportamentom sistemas cognitivos podem ser caracterizados como sistemas que sabem o que estão fazendo” (a DARPA sublinha a última frase). O esforço da DARPA é, no século 21, fazer com que computadores igualem a capacidade do cérebro de um primata. Como? Os atuais sistemas de computadores são muito lentos para tal fim. É preciso encontrar um sistema integrador qualitativo, em vez de quantitativo para atingir a inteligência efetiva. A pergunta da DARPA é como produzir computadores com sistemas reflexo que operem em tempo real e que tenham um olho voltado para si mesmos? A pergunta, aparentemente simples, implica a consciência, ou melhor, a auto-consciência. E notemos que o modelo, longe de ser o humano, é o do cérebro de um primata. O salto seria a integração simbiótica entre cérebro e máquina.

Os primeiros trabalhos nesse plano foram ideados por Alan Turing e Vannevar Bush e a máquina chamada Memex. A contribuição de Turing foi anterior à Segunda Guerra Mundial, conduzindo à inteligência artificial como ela está hoje. Bush, do MIT, define sua memex como parte da “inteligência artificial aumentada”, um programa de pesquisa e de experimentos. Memex (memory extender, extensor de memória). A máquina, um computador (diz Bush no artigo As we may Think, de 1945) seria unida à uma espécie de biblioteca capaz de mostrar livros e filmes, criando automáticamente referencias entre diferentes midia. A partir dela foi possível chegar ao hypertexto, e a própria Web mundial.

O filósofo Peter Skagestad, explica como a inteligência artificial (AI) e o aumento da inteligência (IA) são complementares: “Tanto a máquina de Turing quanto a Memex pretendem mecanizar funções específicas do cérebro humano. O que Turing tentou mecanizar é a computação e, mais geralmente, todo processo de raciocínio que pode ser representado por um algoritmo; Bush tentou mecanizar processos associativos pelos quais a memória humana opera. As duas máquinas também representam abordagens muito diferentes da mecanização. Especificamente, a máquina de Turing é digital, enquanto a de Bush é analógica. Máquinas digitais operam segundo pontos discretos e pode representar processos contínuos apenas em termos funcionais, ou seja, input-output: se, dado o mesmo input, a máquina produz o mesmo output como em algum processo natural, a máquina, dizemos, estimula o mesmo processo, sem atentar se o processo interno à máquina se parece, de qualquer modo, com o processo natural.

Máquinas analógicas, em contraste, utilizam processos internos que se parecem aos naturais, que elas simulam. A Memex que chega a replicar a memória humana, corporificando certa memória artificial não foi pensada para ser rival da mente humanam mas aumentar a capacidade desta última, trazendo dados mais rapidamente e os dados mais úteis. O que resultou em duas invenções complementares de redes e computadores pessoais. As duas servem como base para as pesquisas hoje feitas para encontrar o elo entre cérebro e máquina. E neste sentido, a orientação de Bush é a mais promissora. Isto porque, segundo Charles Sanders Peirce, filósofo americano do século 19 citado por Skagestad, o raciocínio não é mero algoritmom mas experimental. O mais indicado, portanto, seria investigar mais a máquina que podem executar deduções teoréticas com base na semiótica da significação, marca da cognição. Ou seja, seguindo o pensamento de Peirce, máquinas que tenham habilidade de operar com símbolos que brotam do cérebro experimental. O símbolo, como outros elementos externos, são relevantes na tarefa de pensar.

Há um outro programa da DARPA chamado Aumento de Cognição (AugCog). Trata-se de medir a capacidade cognitiva de sujeitos em situação de estresse. Militares já vivem num ambiente cheio de máquinas, como se já estivessem unidos a elas numa relação simbiótica. Mas eles podem falhar numa situação de estresse, dadas as inúmeras operações concomitantes que devem ser resolvidas em segundos. Pilotar um avião, estudar o terreno para identificar alvos, decidir se tais alvos são civis ou não, manter ordens emitidas pelo comando geral, etc. tudo se complexifica na hora da ação. E inúmeros instrumentos devem ser manipulados quase simultâneamente. O programa de Aumento de Conhecimento visa aumentar e aprimorar a memória para tarefas multiplas.

Ceticismo político.

No romance, filmado por Luchino Visconti, O Leopardo, Lampedusa termina a narrativa com um diálogo de surdos entre o príncipe de Salina, aristocrata que não aceita a mediocridade humana, e um ministro do novo reino italiano. O político fora até o palácio principesco para oferecer ao poderoso siciliano um lugar no Senado. Ao expor as vantagens do cargo, ele diz que seria possível, através da política, melhorar a sorte dos pobres, a ausência de desenvolvimento econômico, fazendo os sicilianos se tornarem melhores. A resposta inicial do principe é desconcertante: “os sicilianos não desejam ser melhores, porque julgam serem deuses. E ademais, após dominações múltiplas de todos os povos hegemônicos do Medieterrâneo, eles estavam cansados, mergulhados num sono que não querem deixar. E todos os presente magníficos do progresso, do bem estar, da ciência e das técnicas serão assumidos por eles como inconvenientes, porque lhes retirariam o sono, o sonho. Quando o político, na carruagem, se despede do aristocrata, este lhe diz em voz desolada :”Noi fummo i Gattopardi, i Leoni; quelli che ci sostituiranno saranno gli sciacalletti, le iene; e tutti quanti Gattopardi, sciacalli e pecore continueremo a crederci il sale della terra”.

A desolação do homem superior não residia apenas numa derrocada de sua gente rica e refinada. Ele tem plena consciência de que os dominantes têm hora e data para mandar e para desaparecer do cenário político e mundano. Quando seu confessor lhe reprova, e à aristocracia, não defender a Igreja, o que traria a sua ruína econômica e social, o príncipe responde com clareza meridiana: “Non siamo ciechi, caro Padre, siamo soltanto uomini. Viviamo in una realtà mobile alla quale cerchiamo di adattarci como le alghe si piegano sotto la spinta del Mare”. À Igreja foi dada implicitamente a promessa da imortalidade, diz ele, modificando o dito evangélico de que as portas do inferno não prevalecerão sobre a Pedra na qual Pedro vigiará os céus e a terra. Tu est Petrus et super hanc petram aedificabo Ecclesiam meam. Entre a imortalidade eclesiástica e a vida dos indivíduos e classes, brota um abismo. “Per noi un palliativo che promette cento anni equivale all ´eternità. Potremo magari preoccuparci per i nostri figli, force per i nipotini; ma al di là di quanto possiamo sperare di accarezzare con queste mani non abbiamo obblighi; e io non posso preocuparmi di ciò che saranno i miei evntuali discendenti nell´anno 1960. La Chiesa sì, se ne deve curare, perchè è destinata a non morire. Nella sua disperazione è implícito il conforto. E credete voi que se potesse adesso o se protrà in futuro salvare sé estessa con il nostro sacrificio non la farebbe? Certo che lo farebbe, e farebbe bene”. (7)

As dimensões do tempo esmagam poder, riqueza, aristocracia. A Igreja não é Eterna, mas ela recebeu a promessa da imortalidade. Haverá um dia em que ela será chamada por Deus a prestar contas do seu rebanho e de si mesma. Este será o dia do Juízo Final, quando o tempo sumirá no abismo do Eterno, com todas as vaidades do mundo. É o que proclama o Apocalipse : “Ego sum alpha et omega, primus et novissimus, principium et finis”. ἐγὼ τὸ ἄλφα καὶ τὸ ὦ, ὁ πρῶτος καὶ ὁ ἔσχατος, ἡ ἀρχὴ καὶ τὸ τέλος. (Apocalipse, 22-13), Os termos empregados não deixam dúvida: com o Eterno se revelam aos bemaventurados o princípio (a base, o fundamento, ἀρχὴ e o fim τέλος . Não haverá mais tempo e espaço. Mas até aquele instante oportuno (Kayrós) a Igreja, por não ser Eterna, conhecerá o desespero, a tentação do nada, o mal. Na marcha rumo à salvação, ela passará por todos os príncipes, Estados, sociedades, classes, cujo tempo é finito, pura degração do Eterno. Nada no tempo é estável, durável, sobretudo os homens e seu poder.

O tema da transitoriedade cósmica vem de longa data. Já os chamados pré-socráticos como Empédocles de Agrigento narram a guerra dos elementos, as passagen do amor ao ódio, a impossível paz sonhada pelos entes, sobretudo os pensantes. Como, se não for a Igreja ( e mesmo esta última, porque possui lado humano e pecador, transitório, a Eclesia militans) conseguir um Estado, ou seja, um poder estável, capaz de assegurar um mínimo de paz aos atormentados e atormentadores seres humanos?

Consultemos um outro escritor italiano, agora Giacomo Leopardi. No livro Zibaldone, não por acaso traduzido recentemente para o francês com o título de “Le massacre des illusions” (8) diz Leopardi: “Acredita-se que o homem, por natureza, seja o mais social dos seres vivos. Entendo que ele seja bem menos do que qualquer outro: tendo mais vitalidade, ele possui mais amor de si, e portanto ele nutre necessáriamente mais ódio dos outros indivíduos, quer eles pertençam ou não à sua espécie”. Este trecho, de 1823, não deixa dúvida sobre o juízo antropológico e político do autor. Dos animais, não existe mais a lista dos nobres e dos baixos, dos leopardos ou leões, da hienas ou porcos. Agora, o bicho chamado homem é perigoso e inimigo dos laços sociais. Se podemos chamar esta doutrina de pessimista, ela é consoante com outros pensadores como Goethe, no Fausto. Ao se referir ao “deusinho do mundo”, o homem, o poeta diz que ele recebeu uma centelha divina, mas a chama Razão e a usa apenas para ser mais bestial dos que todas as feras: “Er nennt’s Vernunft und braucht’s allein, /Nur tierischer als jedes Tier zu sein.”.

Voltemos a Leopardi: diz ele na sequência, “que os filósofos, políticos, todo tipo de gente se esforçaram sem descanso por inventar uma sociedade perfeita. Mas após tantas pesquisas, tantas experiências, o problema permanece inteiro. Por mil razões, por mil circunstâncias diferentes, mil formas de sociedade viram a luz do dia entre os homens. Todas foram ruins, e todas as que hoje enxergam a luz são ruins também”.

Segundo Leopardi, não existe possibilidade de se instalar uma associação humana perfeita, ou pelo menos aceitável. Como diz Laura Tappan, em artigo que acompanho nestas considerações, “por perfeita ele entende uma forma social cujos membros não se prejudicam mútuamente e não buscam causar males uns aos outros (ou o fazem apenas de maneira acidental). (…) Nas sociedades humanas (…) Leopardi chega em seus discurso ainda mais longe, excluindo a possibilidade da existência de uma verdadeira associação humana”. (9) A solidão seria, para ele, o lugar natural dos animais em sua maioria e, sobretudo, no caso do homem. Leopardi distingue duas sociedades, a ampla e a estreita. Por natureza, somos destinados à primeira, na qual seria quase inexistente a desigualdade entre os homens, porque nela os mais fortes não são empurrados a exercer sua superioridade.

A causa da infelicidade humana é a sociedade estreita, na qual os fracos são presa dos fortes. E o autor critica todas as formas de poder, das feudais às modernas e chega à conclusão de que “o homem é naturalmente odioso ao homem” e fundar uma sociedade perfeita é contra a natureza. Daí que as sociedades estreitas, os Estados, são contra a natureza. Tais enunciados tiveram forte peso no pensamento do século 19, na virada para o século 20. Schopenhauer, Kierkegaard e Nitezsche (este último admirador de Leopardi) se preocupa, não com a alteração do sistema social e político, mas dos valores, para recupear o que se perdeu nas experiências estatais.

A desconfiança diante do poder estatal, nos séculos 19 e 20, tem alguns antecedentes relevantes no século 17. E a antropologia por eles defendida pode-se, dizer, instigam plena desconfiança no ser humano, individual ou reunido em sociedade. Vamos analisar, com base no trabalho de Sophie Gouverneur, o pensamento cético da idade clássica, formas de reflexão que justificam o poder da razão de Estado e, ao mesmo tempo, são contemporâneos de sua crítica. Comecemos com Samuel Sorbière, tradutor de Hobbes para a lingua francêsa, que não segue, no entanto, a teoria do contrato e da natureza humana a ele anterior. Ele prefere o caminho da história, como em Maquiavel ou Pascal.

A antropologia que surge no escritor afirma que o homem é movido pelas paixões mutáveis. Trata-se, pois, de entender tamanha variabilidade. E desde o início, buscar fórmulas políticas que a dominem. As paixões são inconstantes, variáveis, sem lei, pois mesmo a inconstância é inconstante. Nada, por enquanto, que não seja uma aquisição, um lugar comum do platonismo cristão, com a idéia de que o tempo é variação rumo ao pior, à corrupção. Como em Camões: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,/Muda-se o ser, muda-se a confiança;/Todo o mundo é composto de mudança,/Tomando sempre novas qualidades./Continuamente vemos novidades,/Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,/E do bem, se algum houve, as saudades./O tempo cobre o chão de verde manto,/Que já foi coberto de neve fria,/E em mim converte em choro o doce canto./E, afora este mudar-se cada dia,/Outra mudança faz de mor espanto:/Que não se muda já como soía.”. Basta ler Shakespeare ou Edmund Spenser para notar o quanto o tema era lugar comum no século XVI. Recomendo a leitura dos Mutability Cantos, fragmento póstumo publicado em 1609, no contexto maior de Faerie Queen e o longo poema intitulado “The ruine of time”.

A alma, escreve Sorbière, não comanda as paixões, mas lhes obedece, ela é balançada ao ensejo dos encontros com objetos que determinam as paixões pelas impressões que elas fazem nascer sobre a sensibilidade. Em Spinoza, algo dessa forma de ver se encontra na sua tese da flutuação da alma. As paixões sempre mudam e mudam sem outra lei, a não ser o acaso do encontro entre uma sensibilidade e um objeto. Aqui, naturalmente, há discrepância entre Sorbière e Spinoza, pois segundo este último o acaso nada explica quando se trata de entender a mutabilidade das paíxões.

Outro pensador do tempo, Le Vayer, atribui a inconstância apaixonada à nossa fantasia ou imaginação. “É tão verdade que somos constantes apenas em nossa inconstância, o que o nosso conhecimento de nós mesmos nos confirmará melhor do que qualquer outra coisa; sempre permanece constante que a alma é tal na sua inconstância, que basta o sonho de uma noite, diz o Eclesiástico, para mudar todas suas noções e toda sua ciência”. Um mesmo objeto pode tomar duas pessoas, ao mesmo tempo, “um ar alegre, que alegrará pessoas bem humoradas, trará desprazer as que mergulham numa profunda tristeza”. Recordemos Camões. “Só pensamos o que queremos no instante em que o queremosm e mudamos como aquele animal que toma a cor do lugar em que ele se deita”. Tal é o juízo de Montaigne (Essais, II, I, “De l´inconstance de nos actions”). Assim, as amizades, um poderoso impulsionador da polis, são improváveis e inconstantes.

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1 Mind Wars. Brain Research and National Defense (New York, Dana Press, 2006).
2Autor importante: Norbert Wiener, cujo livro Cybernética e Sociedade está parcialmente na internet : http://www.ciren.org/artifice/artifices_4/Actes/wiener.html ; outro livro de Wiener (Cybernetics or control and communication in the animal and the machine) está disponível em parte no Google Books. Seguir principalmente o capítulo VIII do livro: “Information, Language, and Society”, pp. 155 e seguintes.
3 New Model Army Soldier Rolls Closer to Battle, The New York Times.
By TIM WEINER- Published: February 16, 2005. The American military is working on a new generation of soldiers, far different from the army it has.”They don’t get hungry,” said Gordon Johnson of the Joint Forces Command at the Pentagon. “They’re not afraid. They don’t forget their orders. They don’t care if the guy next to them has just been shot. Will they do a better job than humans? Yes.”The robot soldier is coming. The Pentagon predicts that robots will be a major fighting force in the American military in less than a decade, hunting and killing enemies in combat. Robots are a crucial part of the Army’s effort to rebuild itself as a 21st-century fighting force, and a $127 billion project called Future Combat Systems is the biggest military contract in American history. The military plans to invest tens of billions of dollars in automated armed forces. The costs of that transformation will help drive the Defense Department’s budget up almost 20 percent, from a requested $419.3 billion for next year to $502.3 billion in 2010, excluding the costs of war. The annual costs of buying new weapons is scheduled to rise 52 percent, from $78 billion to $118.6 billion.

Military planners say robot soldiers will think, see and react increasingly like humans. In the beginning, they will be remote-controlled, looking and acting like lethal toy trucks. As the technology develops, they may take many shapes. And as their intelligence grows, so will their autonomy. The robot soldier has been a dream at the Pentagon for 30 years. And some involved in the work say it may take at least 30 more years to realize in full. Well before then, they say, the military will have to answer tough questions if it intends to trust robots with the responsibility of distinguishing friend from foe, combatant from bystander. Even the strongest advocates of automatons say war will always be a human endeavor, with death and disaster. And supporters like Robert Finkelstein, president of Robotic Technology in Potomac, Md., are telling the Pentagon it could take until 2035 to develop a robot that looks, thinks and fights like a soldier. The Pentagon’s “goal is there,” he said, “but the path is not totally clear.” Robots in battle, as envisioned by their builders, may look and move like humans or hummingbirds, tractors or tanks, cockroaches or crickets. With the development of nanotechnology – the science of very small structures – they may become swarms of “smart dust.” The Pentagon intends for robots to haul munitions, gather intelligence, search buildings or blow them up. All these are in the works, but not yet in battle. Already, however, several hundred robots are digging up roadside bombs in Iraq, scouring caves in Afghanistan and serving as armed sentries at weapons depots. By April, an armed version of the bomb-disposal robot will be in Baghdad, capable of firing 1,000 rounds a minute. Though controlled by a soldier with a laptop, the robot will be the first thinking machine of its kind to take up a front-line infantry position, ready to kill enemies. “The real world is not Hollywood,” said Rodney A. Brooks, director of the Computer Science and Artificial Intelligence Laboratory at M.I.T. and a co-founder of the iRobot Corporation. “Right now we have the first few robots that are actually useful to the military.” Despite the obstacles, Congress ordered in 2000 that a third of the ground vehicles and a third of deep-strike aircraft in the military must become robotic within a decade. If that mandate is to be met, the United States will spend many billions of dollars on military robots by 2010. As the first lethal robots head for Iraq, the role of the robot soldier as a killing machine has barely been debated. The history of warfare suggests that every new technological leap – the longbow, the tank, the atomic bomb – outraces the strategy and doctrine to control it. “The lawyers tell me there are no prohibitions against robots making life-or-death decisions,” said Mr. Johnson, who leads robotics efforts at the Joint Forces Command research center in Suffolk, Va. “I have been asked what happens if the robot destroys a school bus rather than a tank parked nearby. We will not entrust a robot with that decision until we are confident they can make it.” Trusting robots with potentially lethal decision-making may require a leap of faith in technology not everyone is ready to make. Bill Joy, a co-founder of Sun Microsystems, has worried aloud that 21st-century robotics and nanotechnology may become “so powerful that they can spawn whole new classes of accidents and abuses.”
4 Le Silence des bêtes. La philosophie à l’épreuve de l’animalité, Paris, Fayard, 1999.
5 Horst Bredekamp: Thomas Hobbes. Der Leviathan. Das Urbild des modernen Staates und seine Gegenbilder. 1651-2001. (Akademie Verlag, 2006).
6 Retiro tais notas do artigo “L´ automate spirituel leibnizien: une préfiguration de la complexité contemporaine” de Jean-Jacques Wunenburger, publicado na Revista Metabasis (www.METABASIS.IT), março de 2007, Ano II, número 3.
7 Tomasi di Lampedusa, Il Gattopardo (Milano, Feltrinelli, 2005, manuscrito de 1957), página 50.
8 Paris, Allia, 1993.
9 Cf. Laura Toppan : “Leopardi et Montale: deux cris dans le désert” in Gerard Brey e Marita Gilli (diretores) Sceptiques et Détracteurs Face à la Cité Idéale (XVIIIe -XXe siècles), Franche Comté, Presses Universitaires de Franche-Comté, 2009, páginas 161 e seguintes.

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