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Marta Bellini

terça-feira, 10 de setembro de 2013
Na Universidade Estadual de Maringá

CARTA ABERTA À POPULAÇÃO (Protocolo 10279/13-PRO)

A PRIMEIRA DO PARANÁ SEM AUTONOMIA E SEM PROJETO POLÍTICO-ADMINISTRATIVO PARA UMA UNIVERSIDADE PÚBLICA!

Na noite do dia 05 de setembro de 2013, quinta-feira, por volta das 23h, um grupo de aproximadamente 25 alunos de diversos cursos da Universidade Estadual de Maringá (UEM) estava reunido pacificamente no Centro Acadêmico Florestan Fernandes, para discutir acerca de impasses criados em relação às políticas culturais e de segurança na Universidade.

Nesse momento, os estudantes perceberam nos arredores uma concentração incomum de vigilantes patrimoniais da instituição. Intimidados e constrangidos, os estudantes, por medida de segurança – levando em conta os recentes casos de truculência por parte de vários vigilantes -, decidiram se deslocar até as imediações do Bloco 6, sede do Diretório Central dos Estudantes (DCE), e lá continuar a reunião e discussão sobre os aspectos políticos inerentes à universidade. Meia hora depois, aproximadamente às 23h30, os vigilantes, apoiados pela presença do diretor da Diretoria de Serviços e Manutenção (DSM) e o chefe da Vigilância, abordaram os alunos de forma intimidadora e exigiram a retirada dos mesmos, alegando existir uma decisão da administração central da Universidade que não permite a circulação de estudantes ou de qualquer pessoa no campus universitário após as 23h30. No momento, estavam presentes dois estudantes do curso de Direito que questionaram em qual regimento e/ou regulamento da Universidade consta tal determinação. A única resposta foi a intimidação verbal.

Sem resposta a esta e outras perguntas feitas pelos estudantes, o grupo de vigilantes — cerca de 30 (trinta) supostos servidores — se afastou por poucos momentos, para, em seguida, retornar encurralando os jovens e os constrangendo ainda mais, até chegar ao extremo de alguns agirem de forma desmedida, agressiva e brutal, com pontapés, socos, empurrões e ameaças, em um covarde ato de violência claramente premeditada. Um completo e inconsequente abuso de autoridade.

Resultados dessa truculência: 03 (três) estudantes foram violentamente agredidos. Um deles teve seu nariz quebrado e outras lesões por ter sido empurrado contra a grade e espancado por pelo menos três vigilantes. Outra estudante tentou socorrê-lo para evitar maiores danos físicos e foi agredida covardemente pelos vigilantes; e ainda, outra estudante, já fora do campus e em busca de socorro, foi atingida por uma pedra lançada de dentro da Universidade pelos vigilantes agressores, resultando em fratura no crânio e oito pontos na testa. Vale ressaltar que muitos outros estudantes, indefesos, foram agredidos e sofreram algum tipo de lesão – física, moral, intelectual, emocional. Enfim, lesão a sua dignidade enquanto ser humano.

Já era madrugada quando os pais de um dos estudantes chegaram revoltados ao Hospital Universitário (HU), para acompanhar o estado de saúde do seu filho e das outras vítimas. Após ver o filho com o rosto e o corpo lesionado, a mãe expressou sua indignação com choro, dizendo que seu filho é defensor de justiça e não gosta de coisa errada, e que esperava que a UEM, como Universidade, garantisse segurança e proteção ao seu filho. Vê-lo com o nariz quebrado pelos vigilantes da própria Universidade era a última coisa que esperava.

Como se não bastasse tamanha barbaridade numa Instituição Pública de Ensino Superior — dita a “melhor do Paraná” —, vários estudantes, que são militantes políticos em defesa da autonomia e da dignidade da comunidade universitária, foram ameaçados de morte e continuam sendo perseguidos por esses vigilantes, que, contraditoriamente, também fazem parte desta mesma comunidade.

Os fatos narrados, ou seja, a agressão, a violência e a ameaça de morte – injustificáveis e desumanos – contra dezenas de estudantes, estão registrados na 9ª Subdivisão Policial de Maringá/PR, por meio dos Boletins de Ocorrência (BO) sob os números 2013/863124 e 2013/862886.

A nota oficial divulgada na imprensa pela Reitoria da Universidade sobre o incidente, afirmando que “os servidores da UEM conversaram pacificamente com os estudantes” e que “segundo informações internas, em nenhum momento a vigilância cometeu excessos”, é de extrema má-fé, de omissão e conivência, para dizer o mínimo.

Por isso, perguntamo-nos: quem, e por qual instrumento jurídico, autorizou tamanha violência praticada desnecessariamente pelos próprios vigilantes dentro do campus de uma Universidade Pública? Qual a responsabilidade política e administrativa, talvez até criminal, da Reitoria em relação aos fatos desleais ocorridos recentemente no campus? Quem determinou a proibição da circulação de membros da comunidade universitária e externa dentro do campus após as 23h30? Qual a razão de supostos vigilantes estarem sem uniforme e sem identificação em horário de expediente? Por que a equipe de vigilância patrimonial desviou a sua função de vigiar e zelar pelo patrimônio da Universidade, que se baseia em todo o corpo humano que a compõe e lhe dá vida orgânica, e perseguir estudantes que estavam legitimamente fazendo uso do espaço público e do direito de reunião para discussões políticas? Isto, então, significa a instalação de um estado de sítio, com características fascistas, dentro do campus universitário? Será que existe um grupo político reacionário que usa os braços de vigilantes truculentos sem controle dos seus instintos mais baixos e animalescos? Se sim, com qual objetivo? Certamente para coibir qualquer ato ou ação política que coloque em risco a “ordem e controle” do sistema que beneficia um grupo específico e corporativista da UEM.

Para além do direito de ir e vir, o direito de reunião e associação livre é constitucional. A UEM, portanto, ao instalar equivocada e arbitrariamente um “toque de recolhimento”, está adotando uma postura pior do que da direita conservadora e reacionária pertencente à classe dominante deste país. Mas por quê?

O fato é que temos, há muito tempo, na UEM, um modelo de política administrativa pautado na incompetência, no obscurantismo e nos “vícios” do clientelismo. E é exatamente este tipo que gerou e continua gerando esse e tantos outros casos de confusão e contradição, chegando, hoje, ao ápice de uma concreta crise política e administrativa.

Podemos refletir que este e outros casos semelhantes, que historicamente ocorrem na UEM, revelam a ausência de um Projeto de Universidade Pública em que o ensino-pesquisa-extensão, enquanto processo de formação humana, seja realmente o foco. Ao invés disso, temos um plano de manutenção do poder baseado na política neoliberal que atende aos interesses de apenas um determinado grupo, que desconhece e/ou ignora a essência e função social de um ambiente universitário. No caso dos estudantes, especificamente, pela ausência do direito ao campus, de uma política cultural, de assistência, permanência e acessibilidade à Universidade, cria-se uma lógica irracional de criminalização de todo e qualquer tipo de manifestação política-artística-didática-cultural realizada por estudantes e outros membros da comunidade universitária. Não é, pois, reprimindo-os que encontraremos uma saída inteligente, mas abrindo uma discussão ampla e responsável com toda a comunidade sobre o rumo que a UEM deve tomar, sem repressão, sem autoritarismo e sem violência – tanto física e moral quanto política.

Em aspectos gerais, sabemos que atualmente no Brasil existe um processo de militarização para reforçar e exigir a “ordem” no país, no sentido de proteger ainda mais o conservadorismo por meio das forças e ações retrógradas do Estado. Também sabemos que 44% de todo o orçamento da União é usado para pagar e beneficiar banqueiros nacionais e internacionais, enquanto o mínimo é aplicado em educação, transporte e saúde. Esses e outros elementos, em parte, nos ajudam a entender as constantes pressões políticas que a UEM — e outras instituições do ensino público — recebe dos governos municipal, estadual e federal, deixando-a mais vulnerável às extremas precarizações, como as relatadas acima.

Diante dos trágicos e injustificáveis fatos de repressão e violência, da política obscurantista adotada pela administração da Universidade e do amplo contexto neoliberal que se utiliza de meios irracionais e fascistas para sua manutenção, EXIGIMOS:

Imediato afastamento dos vigilantes agressores, assim como daquele(s) que autorizou(aram) e coordenou(aram) tal ato brutal de violência, para que a integridade dos estudantes e de toda a comunidade universitária seja mantida e preservada. E, consequentemente, a exoneração destes por meio de sindicância e/ou processo administrativo;
Total, irrestrito, gratuito e digno suporte médico e psicológico a todas as vítimas até a sua completa recuperação, bem como o ressarcimento financeiro pelos custos que estas já tiveram e ainda terão com remédios e outras necessidades;
Imediata retratação pública por parte da administração da Universidade, como respeito às vitimas e à comunidade universitária;
Imediata liberação e publicação da lista completa dos servidores da vigilância que estavam trabalhando no período noturno do dia 05/09/2013 e madrugada do dia 06/09/2013;
Imediata discussão e instalação, a partir de uma comissão formada por sorteio, de um regimento/estatuto que condene concretamente atos de agressão, opressão, repressão e violência praticados no campus da UEM (sede e extensão);
Imediata convocação de uma Assembleia Universitária, com foco nos aspectos de autonomia e democratização da Universidade.

ABAIXO A IRRACIONALIDADE E REPRESSÃO! Lutamos por um Autêntico Projeto de Universidade Pública, que valorize o ser humano enquanto essência do processo de transformação social, e que tenha vistas ao ensino autônomo e responsável nos âmbitos político, cultural, de acessibilidade, permanência, pesquisa e extensão.

Cordialmente,

DCE – Diretório Central dos Estudantes – UEM.

SESDUEM – Sindicato dos Docentes da UEM.

MEK – Movimento em defesa da Educação para Além do Capital.
Postado por Marta Bellini às 22:31 Nenhum comentário:
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Marcadores: AO ATENTADO À VIDA DOS ESTUDANTES DA UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MARINGA, repressão aos alunos
Drogados pelo Ódio
DROGADOS PELO ÓDIO

MOÇÃO DE REPÚDIO AO ATENTADO CONTRA A VIDA DOS ESTUDANTES DA UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MARINGÁ

Marta Bellini
Docente da UEM

O ATENTADO À VIDA DOS ESTUDANTES OCORRIDO NA UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MARINGÁ NO DIA 5 DE SETEMBRO DE 2013 MOSTRA COMO A DOUTRINA DA MILÍCIA, TÃO CARA AOS DITADORES E À DITADURA, AINDA VIVE NA CIDADE DE MARINGÁ E AINDA SOBREVIVE NA UNIVERSIDADE PÚBLICA.

AO LERMOS AS CENAS DO VÍDEO FILMADO PELOS ALUNOS(AS)FICA CLARO: FOI UMA AÇÃO PREMEDITADA DO GRUPO DE 20 VIGIAS E DO DIRETOR DO DSM. O DIRETOR DO DSM ESTAVA DE PLANTÃO NO DIA 5 DE SETEMBRO ÀS 23H? QUAL O TURNO DELE? E QUAIS OS TURNOS DOS OUTROS VIGIAS? POR QUE O DIRETOR DO DSM OLHA O RELÓGIO E DIZ: DEZ MINUTOS SE PASSARAM E LOGO EM SEGUIDA O VIGIA C. AGRIDE UM ESTUDANTE? ESTAVAM COMBINADOS PARA A SURRA?

QUEM É O DIRETOR DO DSM? TEM FUNÇÃO GRATIFICADA PARA LEVAR VIGIAS EM GRUPO E ATENTAR CONTRA A VIDA DOS ESTUDANTES? POR QUE ESTAVAM TODOS OS 20 VIGIAS NO MESMO LOCAL E MESMO HORÁRIO? ELES NÃO TÊM SETORES ESPECÍFICOS? ELES NÃO TÊM QUE TRABALHAR PARA ZELAR O PATRIMÔNIO MATERIAL DA UNIVERSIDADE?

QUEM TREINA OS VIGIAS? ESSES PROBLEMAS NÃO SÃO OCORRERAM AGORA; FAZ TEMPO QUE O CAMPUS PASSA PELAS MÃOS DO ÓDIO. POR QUE AS SUCESSIVAS ADMINISTRAÇÕES NÃO ZELAM POR SEUS ALUNOS E ALUNAS? PODEMOS MANDAR NOSSOS FILHOS PARA A UEM SEM QUE RECEBAMOS UM CORPO MORTO DE VOLTA? EU TENHO UMA FILHA FORMADA NA UEM E VEJO O RISCO QUE ELA CORREU OS 5 ANOS EM QUE ESTUDOU AQUI.

A JUSTIFICATIVA DOS VIGIAS É O USO DE DROGAS. ESTÁ BEM. E SE OS ESTUDANTES ESTIVESSEM COM DROGAS? ELES MATARIAM OS ALUNOS E ALUNAS POR ISSO? NÃO HÁ LEI NESSA UNIVERSIDADE? NESSE BRASIL? A IMPRENSA MARROM AJUDA OS VIGIAS. QUER IBOPE NA FALIDA MASSA DA TV. CHEGAMOS AO RIDÍCULO DE OUVIR OU LER QUE ESTUDANTES FAZEM ORGIA. MORALISMO MASSIFICADO.

VI ÓDIO NOS VIGIAS. UM ATAQUE PRÓPRIO DAQUELES QUE ODEIAM A REBELDIA, A BELEZA DOS JOVENS. VI INVEJA, RESSENTIMENTO. VI UMA HORDA SEM LEI, VI DROGADOS DE ÓDIO.

A ADMINSITRAÇÃO DA UNIVERSIDADE TEM QUE ZELAR POR SEUS ALUNOS. SÃO PATRIMÔNIO CULTURAL. NÃO PODEM SER OS FUTUROS AMARILDOS DE MARINGÁ. SERÁ UMA VERGONHA PARA A UEM SE HOUVER UM DESAPARECIMENTO, UM SEQUESTRO, UMA MORTE ESTRANHA AQUI.

Professora Marta Bellini
Maringá, 10 de setembro de 2013.
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Marcadores: MOÇÃO DE REPÚDIO AO ATENTADO CONTRA A VIDA DOS ESTUDANTES DA UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MARINGÁ
NÃO ÀS MILÍCIAS!

Postado por Marta Bellini às 12:26 Nenhum comentário:
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Marcadores: CONTRA A MILÍCIA NA UEM
MOÇÃO DE REPÚDIO DA SEÇÃO SINDICAL DO ANDES ADUNICENTRO
MOÇÃO DE REPÚDIO

A ADUNICENTRO, Sindicato dos Docentes da UNICENTRO, manifesta repúdio à perseguição que, há algum tempo, vem sendo relatada pelos estudantes e participantes do movimento estudantil da UEM. É inaceitável a falta de respostas e a conivência da administração Central da Universidade, frente ao episódio de agressão física realizada por uma parcela dos vigilantes patrimoniais, contra diVersos estudantes que se encontravam nas dependências da universidade no dia 05/09/2013 e em várias outras situações.

Se já não bastassem os diversos relatos de coerção, perseguição e pequenas agressões contra estudantes anteriormente registrados, esse lamentável fato finda tragicamente com mais de dois estudantes seriamente feridos.

Entendemos que uma Universidade que recorre à violência e coação contra membros da sua comunidade, apenas por insistirem em fazer uso do seu direito às liberdades políticas, representa o que de pior restou do entulho dos períodos da ditadura militar.

Deixamos explícito nosso apoio aos estudantes agredidos, às entidades que se solidarizaram frente a esta situação e, principalmente, aos estudantes que se colocaram à frente no processo de esclarecimento dos fatos ocorridos e cobrança das medidas cabíveis contra os agressores diretos e indiretos.

Nos colocamos a favor de um projeto de Universidade verdadeiramente aberta à ser construída conjuntamente pela comunidade acadêmica e comunidade externa e, não, aristocraticamente, como vem ocorrendo.

Guarapuava e Irati, 09 DE SETEMBRO DE 2013

Postado por Marta Bellini às 12:24 Nenhum comentário:
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Marcadores: AO ATENTADO À VIDA DOS ESTUDANTES DA UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MARINGA, MOÇÃO DE REPÚDIO
Moção SEÇÃO SINDICAL DO ANDES UNIOESTE
MOÇÃO DE REPÚDIO AO ATO VIOLENTO DOS VIGIAS CONTRA ESTUDANTES DA UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MARINGÁ

DA SEÇÃO SINDICAL DA UNIOSTE, CASCÁVEL, TOLEDO

ADUNIOESTE – S.Sindical
MOÇÃO
A Adunioeste, Sindicato dos Docentes da UNIOESTE, manifesta repúdio à perseguição
sofrida há tempos pelos estudantes da UEM. Em especial, repudia as agressões sofridas por
estudantes no último dia 5 de setembro, já registradas em delegacia, mas ainda sem qualquer
esclarecimento da Reitoria.
Estaremos, a partir de hoje, divulgando nacionalmente, por meio do ANDES-Sindicato
Nacional, o ocorrido. Também acompanharemos os esforços da Reitoria, inexistentes até o
momento, para apurar a situação e oferecer segurança aos estudantes da UEM.
Ao mesmo tempo nos solidarizamos com os estudantes agredidos e com o movimento
estudantil da UEM, cuja resistência não faltará para enfrentar a repressão e as agressões
criminosas que parecem campear soltas pela instituição.
____________________________________________
Antônio de Pádua Bosi
Presidente da ADUNIOESTE-S.Sind. (2011-2013)

Segurança nacional, espionagem e técnica
11 de setembro de 2013 | 2h 16

Roberto Romano* – O Estado de S.Paulo

Várias análises sobre vigilâncias norte-americanas no Brasil eludem o núcleo da moderna ordem estatal. Todo poder público usa o segredo e a espionagem, práticas hoje garantidas pelas “maquinas de guerra” que operam nas fímbrias das políticas oficiais. O jornal O Estado de São Paulo mostrou que entre ditaduras irmãs, como a chilena e a brasileira, existiu desconfiança ardilosa e quebra do sigilo alheio.

Não é preciso muito saber para captar o problema. Basta frequentar A Guerra do Peloponeso e Hobbes: “Em todos os tempos os reis e pessoas de soberana autoridade, por sua independência, vivem suspeições contínuas em posturas de gladiadores, de armas apontadas e olhos fixos uns nos outros; as fortalezas, as guarnições, os canhões postos nas fronteiras de seus reinos espiam continuamente os vizinhos, o que é postura da guerra” (Leviatã). Para a defesa da República, diz ainda Hobbes, são necessárias pessoas “que procuram descobrir todos os pensamentos e atos que podem prejudicar o Estado; os espiões são tão importantes para os soberanos quanto os raios solares para a alma humana, para discernir objetos visíveis (…) eles são necessários ao bem público como os raios de luz para manter as pessoas, comparáveis às teias de aranha cujos fios separados, postos lá e cá, advertem o pequeno animal sobre os movimentos externos…” (De Cive).

Quem se iludiu com o fim da guerra fria hoje constata poderes mundiais em plena atividade bélica, aberta ou dissimulada. A Síria é o caso agudo e o Brasil, um ensaio que pode rumar para situações indesejadas. Cabe aos brasileiros seguir uma linha de fortalecimento, deixando de lado lamúrias e invectivas vazias. Na cena internacional, quem não cresce diminui, na medida em que os adversários aumentam sua força. O país que não aplica recursos na defesa (incluindo as informações) fica à mercê de poderes hegemônicos.

Existem técnicas seculares para captar intentos agressivos alheios – econômicos, bélicos, políticos – e proteger as próprias forças. Já Mazarino, artífice do Estado moderno, usa o livro de Tritêmio Polygraphia (1518). Nele se desenvolve a escrita secreta para uso governamental. A informática do século 21 acolhe os herdeiros de Tritêmio com sofisticados programas para redigir e ocultar mensagens. Mas para aquela arte é preciso investimento em ciência, tecnologia, gente treinada a serviço do País. Sem mecanismos apropriados, nossos profissionais não recebem incentivo ou seguem para o exterior. Atitude pré-maquiavélica é culpar os outros porque cresceram, sem aumentar nossos recursos.

O poder “público” esconde suas iniciativas e espiona as dos estrangeiros. Ele também conquista a opinião, nacional ou planetária, com a propaganda que pulveriza oposições internas, persuade ou intimida outras soberanias (Étienne Thuau, Raison d’État et Pensée Politique à l’Époque de Richelieu). A razão de Estado permite interpretações das leis favoráveis às potências dominantes. Segundo Christian Lazzeri, “o Estado é jogador que não aceita perder e modifica as regras do jogo”. Se uma soberania é incapaz de prever e antecipar ataques, ela é inepta e inapta para o jogo internacional. Prever significa antecipar o não rotineiro, é matéria de prudência. Além da burocracia, os Estados relevantes usam velozes meios de guerra que vão dos espiões aos militares “terceirizados”, com relativa autonomia em face dos poderes oficiais.

Comentário de Eva Horn: “Guerra é rapidez, segredo, violência, astúcia, mas o Estado é fixidez e enraizamento num lugar (…). A máquina de guerra é externa ao Estado, mesmo quando seus elementos integram o aparelho estatal (exército, polícia, serviços de inteligência). Segredo e traição de segredos, desinformação e violação de tratados, propaganda e conspiração integram a máquina de guerra que não pode ser inserida nos princípios da soberania nacional. O moderno ‘partisan’, o clandestino e lutador ‘irregular’ pode corporificar, como paradigma, a máquina de guerra” (Knowing the Enemy: The Epistemology of Secret Intelligence).

A última frase de Eva Horn retoma, do autoritário Carl Schmitt, a Teoria do Partisan (cf. Diálogo sobre o Partisan, em La Guerre Civile Mondiale). O Estado corroído pelos mecanismos bélicos semiclandestinos tende a atenuar a diplomacia e a política externa convencional. É a figura do anti-Estado, para falar como Norberto Bobbio.

As guerrilhas e as formas rápidas de luta libertaram a Espanha em 1808 e foram decisivas no Vietnã. Mas as “máquinas de guerra” que enfrentaram os guerrilheiros aprenderam bastante com eles. Elas agem de modo flexível na fímbria cinzenta da ordem pública e, sigilosas, remodelam a razão de Estado, usando licença maior do que as imaginadas por Maquiavel. Guerrilhas desestabilizaram o direito e rumaram para a truculência ditatorial, como no Camboja. As máquinas de guerra somadas aos terroristas que usam técnicas de guerrilha entorpecem as prerrogativas legítimas do poder. As máquinas de guerra, não raro, decidem ações dos Estados. A dureza burocrática e legal é vencida por elas, criando situações incontornáveis.

No Brasil, após ditaduras em que as máquinas de guerra abusaram da espionagem e da propaganda, o País descobre que a liberdade democrática de sua gente exige investimentos. Nosso Estado exibe um anacronismo perene. Exigir “explicações” de potências hegemônicas é esquecer o que as levou a semelhante posto: guerra e investimento em ciência e técnica. As máquinas de guerra as conduzem a desastres, como é o caso dos Estados Unidos no Afeganistão, no Iraque e, possivelmente, na Síria. Mas para deter sua força, só um poder equivalente. Quem se candidata de fato e sem bravatas?

*Roberto Romano é professor de Ética e Filosofia da Unicamp e autor de ‘O Caldeirão de Medeia’ (Perspectiva).

Está no ar o número 151 da revista mensal eletrônica de jornalismo científico ComCiência , publicada pelo Labjor e pela SBPC. O tema desta edição é “Ruído e silêncio”.

Editorial

– O silêncio, o som e o sentido
Carlos Vogt
http://www.comciencia.br/comciencia/?section=8&edicao=91&tipo=1120

Artigos

– Ruídos e harmonia, as massas desafiam os donos do Estado
Roberto Romano da Silva
http://www.comciencia.br/comciencia/?section=8&edicao=91&id=1119

– Efeitos (silenciosos) da exposição a sons intensos
Keila A. Baraldi Knobel
http://www.comciencia.br/comciencia/?section=8&edicao=91&id=1124

– Medidas para reduzir ruído em eletrodomésticos
Marcelo de Mello Aquilino
http://www.comciencia.br/comciencia/?section=8&edicao=91&id=1123

– Silêncio e religião em tempos de comunicação generalizada
Léa Freitas Perez
http://www.comciencia.br/comciencia/?section=8&edicao=91&id=1118

– O silêncio na psicanálise
Alessandra Fernandes Carreira
http://www.comciencia.br/comciencia/?section=8&edicao=91&id=1125

Reportagens

– Ruídos que nascem nas ruas e ecoam pelo país
Giselle Soares
http://www.comciencia.br/comciencia/?section=8&edicao=91&id=1117

– Passos de uma dança contínua: som, silêncio e ruído
Meghie Rodrigues
http://www.comciencia.br/comciencia/?section=8&edicao=91&id=1122

– Entre silêncios e ruídos, experiências sonoras no cinema
Ricardo Manini
http://www.comciencia.br/comciencia/?section=8&edicao=91&id=1121

– Saúde do trabalhador é impactada por excesso de ruído
Maria Marta Avancini
http://www.comciencia.br/comciencia/?section=8&edicao=91&id=1126

– Soluções inovadoras para o conforto acústico em ambientes urbanos
Cristiane Delfina
http://www.comciencia.br/comciencia/?section=8&edicao=91&id=1116

Entrevista

– Iván Izquierdo
Entrevistado por Ricardo Schinaider de Aguiar
http://www.comciencia.br/comciencia/?section=8&tipo=entrevista&edicao=91

Resenha

– Silêncio e sentido: extrapolando o formalismo na linguagem
Por Cintia Cavalcanti
http://www.comciencia.br/comciencia/?section=8&tipo=resenha&edicao=91

Poema

– Eras
Carlos Vogt
http://www.comciencia.br/comciencia/?section=8&id=1115&edicao=91

Notícias
http://www.comciencia.br/comciencia/handler.php?module=comciencia&action=view&section=3

– Robôs podem ajudar a reabastecer satélites no espaço
– Professores participam de formação continuada em história da África
– Especialistas e comunidade são parceiros em documentários científicos
– Projeto coloca em xeque imaginário sobre a exclusão
– Decisão em favor das baleias da Antártica pode prejudicar santuário no Atlântico
– Museus de ciência deve despertar questionamentos, afirma Jorge Wagensberg
– Projeto conscientiza arqueólogos da importância da divulgação científica

Boa leitura!

_______________________________________________
Labjor/Unicamp
http://www.labjor.unicamp.br

Change.org

Roberto ,

O Ministério Público do Rio Grande do Sul já sabe que somos mais de 28.000 pessoas do país todo contra a impunidade no processo da Boate Kiss. Na última sexta-feira, eu e outras mães de vítimas da tragédia fomos recebidas em Porto Alegre pelo Subprocurador-Geral de Justiça do estado, dr. Ivory Coelho Neto, e entregamos para ele a sua assinatura.

Veja a foto que tiramos antes da entrega e clique para compartilhar no Facebook:

Clique para compartilhar

E esta foto foi durante o desfile de Sete de Setembro em Santa Maria:

Clique para compartilhar

Fizemos pessoalmente um apelo para que o MP não deixe a questão se tornar jogo político. Se houve improbidade administrativa ou outros crimes pela Prefeitura é a investigação vai dizer. O que não dá para engolir é que a denúncia da Polícia Civil seja arquivada.

Vamos continuar a campanha! Já tivemos informações de bastidores que a nossa reunião na sexta foi muito importante e que talvez o Procurador Geral de Justiça, dr. Eduardo de Lima Veiga, venha a Santa Maria se reunir conosco.

Se puder, chame mais um amigo para assinar, assim vamos DOBRAR o tamanho da pressão. Encaminhe este email ou envie este link: http://change.org/justicasantamaria

Muito obrigada novamente!

Jacqueline Malezan

θεατροκρατία : Ruídos e harmonia, as massas desafiam os donos do Estado.
Roberto Romano

Para as crianças mortas na Síria, pela venenosa razão estatal.

As massas, nas ruas do mundo (Nova York, Paris, Cairo, Damasco, Tunis, Rio de Janeiro, São Paulo) inauguram uma nova era política. Seus cantos podem anunciar guerras civis ou abrir sendas para novos experimentos no elo entre poderes e povos. A violência na política, economia ou religião, em todas as sociedades, gera revolta e organiza indivíduos até agora silentes. Governos e imprensa exorcizam o “vandalismo” que ameaçaria a “ordem estabelecida”. Avenidas se transformam em campos de batalha como na Síria, ou em vias de pacificação provisória, em Tunis. Gritos brotam das gargantas, condenam um desarrazoado que reduz o mundo à triste “waste land” sem presente ou amanhã. Na cultura, desde os primórdios, temos o embate entre os ruídos assustadores e assustados e a ordem racional. Jamais nenhum deles reuniu hegemonia absoluta. Todo discurso exorciza a morte, falta absoluta de sentido. E nada apresenta a morte de maneira mais dura do que a guerra civil ou entre Estados. (1 )

“A guerra de agora é ruído. Em especial o ruído gerado pelos Stukas quando mergulham sobre a sua cabeça e o vento que faz as sirenes berrarem muitas vezes, como loucas. Guerra é o ruído da bomba ao cair. Grosso, pesado ruído. Depois o ruído dos vidros quebrados e das paredes tombadas. Depois o ruído do silêncio. O silêncio que a eternidade agarra por um segundo e depois deixa rápido escapar. Mais do que tudo o mais, hoje, é o ruído das pessoas desesperançadas, feridas, de alma queimada. Quando o instante de silêncio se vai, elas berram ou murmuram, ou apenas lamuriam. (…) Você pode esquecer o que enxerga. E o que cheira, mas jamais esquece os ruídos. Eles batem na sua cabeça e fazem ver Belgrado, quando estamos no Cairo. Eles nos fazem cheirar carne humana queimada em Corinto, quando estamos em Nova York. Ruídos não permitem o sono. Você imagina saber algo sobre ruídos? Espere até ouvir os ruídos da guerra, então pode acreditar no que digo. Os ruídos da guerra logo conduzirão o mundo à loucura”. (St. Robert John : From the Land of silent people). (2 ).

Antes de Robert John, outros exprimiram a loucura da guerra no embate da lógica contra o absurdo. “Imagine as coortes bárbaras que inspiram terror só com as suas faces e o som de suas vozes. Nos dois lados da batalha, o temível barulho das armas, odioso rosnar da grande multidão… o espantoso alarido das trombetas, o trovão dos canhões…. a espantosa carnificina”. Trata-se da investida feita por Erasmo de Rotterdam contra a guerra. ( 3) Não por acaso um contemporâneo de Erasmo escreveu a cena bela e terrível na qual os berros e as imprecações dos soldados são congelados e soltos quando o mundo esquenta e libera o horror pretérito. (4 ) Ainda Erasmo, inimigo dos instrumentos berrantes da música, condena a polifonia seguida de sons estridentes “que evocam a imagem da guerra ou da violência geral”. Em carta a Nicolas Varius (26/09/1526) ele proclama: “Platão considera que o gênero musical no Estado é de grande importância, o que teria ele dito se escutasse tal música entre cristãos?” (5 )

A crítica da guerra, no instante em que os Estados nacionais europeus se firmam e os governos adquirem a ética da raison d’État em detrimento dos povos, une-se, na consciência dos humanistas, à lembrança ilusória de Platão, o arquiteto da política ocidental. Embora sua faina tenha sido pacificar as massas, tanto físicas quanto espirituais, Platão projeta o plano do Estado, tal como subsiste em nossos dias. ( ) Nele, apenas os competentes navegadores do navio público têm o direito de impor caminhos à massa inepta. A separação entre dirigidos e dirigentes encontra nos textos platônicos a sua primeira forma técnica e, ousemos dizer, científica. Tal abismo entre as multidões e os líderes é formulada nas Leis contra os ruídos que destruíram, segundo o filósofo, a democracia ateniense. As considerações que farei nas linhas seguintes giram ao redor daquele texto fundador, no ponto mais delicado da ordem política: o econômico que implica a propriedade. Platão faz um personagem do diálogo, o ateniense, anunciar que para definir a igualdade entre cidadãos seria preciso impor normas à propriedade fundiária e às dívidas. Quando um legislador deseja mudar algo naquele plano, todos se levantam contra ele e alegam que não se deve mexer no caso.

Mas os homens, adianta Platão, possuem um comum objeto de desejo, tudo ocorre conforme as exigências de nossa alma. O legislador deve estabelecer normas tendo em vista a virtude, o pensamento refletido, a opinião, o amor (eros), o desejo que concorda com as primeiras atividades de nossa alma. A ruína dos governos ocorre porque eles não sabem dizer quem deve mandar e quem deve ser mandado, na sua ignorância sobre o que mais importa nos assuntos humanos. Qual ignorância é visada? A produzida quando tendo julgado bela uma coisa, ou boa, não a amamos mas a odiamos. Então amamos e procuramos o que é perverso e injusto. Tal discordância entre pena e prazer e a opinião razoável é a suprema ignorância porque ela é própria da massa popular (πλῆθος) pois a parte da alma sujeita à pena e ao prazer corresponde exatamente, no Estado, ao povo e à massa. A massa ignara não deseja obedecer os magistrados e as leis.(6 ) O mesmo ocorre nos indivíduos, se os bons princípios são ineficazes, pois vence o que é dissonante. Nenhuma magistratura pode ser atribuída a alguém que padeça de semelhante ignorância. Deve-se, ao contrário, chamar de sábio o caráter oposto, e lhe atribuir os cargos. A sinfonia (συμφωνία), mais bela e elevada consiste no mais alto saber (σοφία), partilhado pelo homem razoável. Quem carece de tal ciência não pode ser um salvador (σωτήρ) do Estado. Quem manda deve possuir títulos para tal nos grandes Estados, nos pequenos e nas famílias. Nestas, o pai ou a mãe comandam os filhos. No Estado, as pessoas de alto nascimento comandam os de baixa extração. Depois, os anciãos dirigem os jovens, o escravo deve ser ordenado pelo senhor, o fraco deve ser conduzido pelo forte.

No comando natural da lei as pessoas obedecem voluntariamente, sem recurso à violência. Mas na democracia existe o sorteio e comanda o vencedor com ajuda do acaso. Temos aqui uma fonte de sedição (στάσις) . As causas da ruína e perda de potência (δύναμις) do povo grego foi ignorar as palavras de Hesíodo segundo a qual, em muitos casos, “a metade vale mais do que o todo”. Sempre é prejudicial por a mão sobre o todo, quando basta fazer isto com a metade, a justa medida vale mais do que o que o desmedido pois é melhor do que o pior. Os governantes arruinados foram atingidos pelo mal que consiste em ambicionar ter mais do que permite a lei. Eles louvam a lei em palavras. Mas não a respeitam de fato. Este choque entre a fala e o ato é a mais grave ignorância, tida no entanto, sobretudo pela massa, como sabedoria. Em razão de tal dissonância se corrompem as belas normas da constituição. A justa medida é essencial na política, como no corpo (alimentação) ou técnicas (nos navios, mais velas do que o preciso), na alma direitos excessivos. Sem ela, tudo se inverte, a abundância de carnes leva à doença, a ilimitação conduz à injustiça. A alma dos jovens não suporta o peso do poder, logo ela é infectada da mais grave doença, a desrazão. Contra tais excessos cabe ao legislador, graças à justa medida, tomar precauções.

Essa teoria do poder supõe o universo e a sociedade como harmonia. E na política deve ser mantido o domínio das antigas leis nas quais o povo não tinha soberania, era escravo voluntário das leis. Quais leis ? As relativas à música. Na época antiga a música era dividida segundo espécies e formas próprias. Não era permitido abusar de uma delas, transpondo-as para outras. O poder de julgar com conhecimento de causa e punir os transgressores não pertencia às vaias ou aplausos, mas era decidido por sábios que tudo ouviriam em silêncio e, varinha nas mãos, estabeleceriam a ordem e advertiriam crianças e professores. A ordem era aceita pelos cidadãos que não ousavam recorrer à gritaria para dar sua opinião.

Os poetas inculcaram na massa o hábito de infringir as leis e a audácia de se acreditar capaz de decidir. Resultado: antes, o público não falava no teatro (era ἄφωνος), depois, começou a falar como se entendesse o que é belo na música. Surge a “teatrocracia” (θεατροκρατία) depravada que substitui o poder dos melhores juízes. Se apenas em música, e em música apenas, surgisse uma democracia, não ocorreria algo tão desastroso. Mas pela música se iniciou a crença no saber de todo mundo para julgar, a atitude subversiva. Segue-se a audácia de não temer a opinião de quem vale mais. Após tal liberdade, vem outra que consiste em não aceitar voluntariamente ser um “escravo” da autoridade. Depois vem a fuga da “escravidão” diante do pai e da mãe, diante dos antigos e a busca de um meio para burlar as leis. E ocorre o desprezo dos juramentos, da fé publica, o desprezo dos deuses. O livro III das Leis indica as tarefas do legislador: promover no Estado a amizade entre os cidadãos, com base no pensamento racional. A correta constituição deve ser temperada. Todo poder deve possuir limites, tanto no lado do povo quanto no lado do príncipe. Atenas se inclinou em demasia para o lado democrático, a Pérsia do outro. A Pérsia se enfraquece porque a obediência dos povos, nela, é servidão, mas Atenas adoece porque a liberdade se transforma em licença, perde o sentido da autoridade. O poder político deve ser distribuído na proporção da virtude, cujos graus são os seguintes : bens da alma unidos à temperança, bens do corpo, a riqueza. (7 )

Da terra aos meios urbanos de controle político, Platão inaugura a máquina estatal para gerir a massa dos ignaros, algo repetido ad nauseam por seus êmulos da moderna Raison d’État. ( 8) Desde então, os que governam possuem, supostamente, a receita para a harmonia social, econômica, política. Eles usam a polícia, o exército e a censura (9 ) para controlar as multidões, além da propaganda sem peias. (10 ) A divisão entre os que sabem e os ignorantes determina o imaginário que separa as multidões ruidosas e bárbaras dos que, nos palácios, supostamente defendem a cultura, a civilização, a paz. Platão sempre teve seguidores entre os amigos do poder. Hegel, por exemplo, define o Estado como “organismo, desenvolvimento da Ideia segundo o processo de diferenciação de seus diversos momentos”. Com a Revolução Francesa, fruto das Luzes, pensa ele, o social se fragmentou por causa da igualdade política. O filósofo recorda a surrada fábula do estômago e dos membros: “O organismo é composto de tal natureza que se todas as partes não concordarem na identidade, se uma só delas torna-se independente das outras, vem a ruína do Todo”. Quem fala em igualdade ou liberdade nesse plano, diz Hegel, “assume o ponto de vista da populaça”. O conceito de organismo, lembra Norberto Bobbio, (11 ) encontra-se na concepção hegeliana do político, do jurídico e do social. A “populaça” é exorcizada : “É opondo à soberania do monarca se começou, numa época recente, a falar em soberania do povo. Considerada nessa oposição, a soberania popular é integrante desses pensamentos confusos que se baseiam nas representações grosseiramente populares. Sem o seu monarca e sem a organização que a ele se liga necessariamente, e de modo imediato, o povo é massa informe que já não é mais um Estado” (Filosofia do Direito § 279 nota) (12 ).

No século vinte os Estados invocaram a “soberania popular” e mantiveram um aparato burocrático que assumiu, sine ira et studio, poderes hierárquicos, transcendentes e decisivos. Ordens das “autoridades”, como as do Rei, não se discutem, pois tel est son bon plaisir. Bancos Centrais possuem força maior do que a de Luis XIV e Napoleão. Os donos do mando atual, a pretexto de “globalização” e outros sinais sonoros vazios, recusam a democracia em prol da especulação financeira global. Resulta que as populações são jogadas no desemprego, na insegurança, nas guerras. Sem justificar seus monopólios da força, da norma jurídica, dos impostos, o poder público negligencia os serviços coletivos. O povo deve gerar riqueza, sem o básico da educação, saúde, transporte, segurança jurídica. Sem atender a tais requisitos o Estado perece, torna-se cada vez mais um absurdo instrumento sem vida. Aumenta a morte coletiva e surgem os signos do retorno ao estado de natureza, tanto nas periferias pobres das urbes quanto nos bairros enriquecidos. A responsabilidade por uma catástrofe política e social e pelo fim inglório da república deve ser partilhada entre políticos arrogantes que se julgam superiores ao povo e intelectuais idem. As massas, com seus alaridos “bárbaros”, ou “vandálicos”, abrem um caminho estranho à Raison d’État ( ) cuja “harmonia” é na verdade o caos dissonante imposto a ferro e fogo aos povos, o massacre dos milhões, a indústria bélica e seus barulhos horrendos. Conseguirá o Estado se recompor em novas bases? Ou seguiremos rumo à exacerbação de sua violência “legítima”? A semelhança das sereias que atormentaram Ulisses, qual propagandista conduzirá as gentes para o abismo sob maviosas cantigas? A propaganda, sabemos desde Goebbels, é arma importante em tal guerra. Mas pouco a pouco até mesmo ela se desgasta. Saudemos a nova esperança dos povos e de sua primavera. Esta, muito rápido, se tranforma no inverno mortal por obra dos poderes estatais, como vemos na Síria, no Egito e…last but not least, no Brasil da repressão brutal aos gritos de liberdade que vêm das ruas, contra os piores abusos cometidos nos palácios.

Notas

(1) As páginas seguintes supõem o trato com vasta bibliografia sobre a Razão de Estado, tema que estudo na Unicamp há bom tempo. O texto e a bibliografia foram postos nos seus elementos essenciais. No final de 2013 está prevista a publicação de um livro meu com trabalhos extensos sobre a racionalidade estatal contra a soberania popular.

(2) NY, Doubleday,1942. Stuka: Sturzkampfflugzeug, bombardeiro da Luftwaffe, Segunda Guerra Mundial;
No adágio Dulce bellum inexpertis (A guerra é aprazível para quem não a conhece). (1515). Cf. Pugliatti, Paolo: Shakespeare and the just war tradition (Farnham, Ashgate, 2010) p. 42
“Pantagruel, ouvindo o escândalo que Panurgo fazia, exclamou (…) escutemos antes para saber do que se trata ! Talvez sejam os nossos. Não vejo ninguém. E no entanto percebo cem mil vozes ao nosso redor. (…) O capitão respondeu: ‘Senhor, não tenha medo de nada. Aqui se encontram os confins do mar glacial, onde se passou no começo do último inverno uma grande e bandida batalha entre os Arismapiens e os Nefelibatas. Então tudo gelou no ar, as palavras e os gritos dos homens e das mulheres, o choque das massas, a batida das lanças, das armaduras, os relinchos dos cavalos, e todo o estrondo de um combate. Agora que o rigor do inverno passou e retorna a paz e a duçura dos belos dias, o que gelou se faz ouvir e entender.’Por Deus, disse Panurgo, acredito. Mas poderíamos ver mais de perto? (…) Eis, eis, disse Pantagruel, eis algumas que não se descongelaram’ . E nos jogou então às mancheias punhados de todas as cores. Vimos palavras vermelhas, verdes,azuis, negras, douradas. Elas se fundiam porque esquentavam em nossas mãos e as ouvíamos perfeitamente. Mas não as compreendíamos, porque era uma lingua desconhecida. O irmão João apertou um grande número em suas mãos, o que fez um som igual ao das castanhas que estouram quando jogadas ao fogo sem terem sido fendidas, e nos sobressaltamos todos de espanto. ‘Aquela palavra foi um golpe de foice no seu tempo’ disse o irmão João. Panurgo pediu outras a Pantagruel. Este respondeu que só havia a dos amantes que empenhavam sua palavra. ‘Então as venda! ‘replicou Panurgo. ‘Só os advogados vendem palavras, respondeu Panurgo. Eu venderia de preferência o silêncio, muito caro!’ E ele jogou na ponte três ou quatro punhados. E vi palavras bem picantes, palavras injuriosas, (…) palavras horríveis, e outras muito desagradáveis de serem vistas. E quando todas se fundiram, ouvimos : ‘hin, hin, hin, hin, his, ticque, torche, lorgne, brededin, brededac, frr, frrr, frrr, bou, bou, bou, bou, traccc, trac, trr, trr, trr, trrr, trrrrrr, on, on, on, on, ououououon (…) e não sei mais que outras palavras bárbaras. Eram os ruídos do choque e do relinchar dos cavalos no assalto. Eu quis colocar algumas palavras vermelhas no óleo, para as conservar bem. Mas Pantagruel me impediu e declarou que era loucura guardar aquilo que nunca falta”. Pantagruel
, Quarto livro, capítulos LV e LVI in Oeuvres complètes de Rabelais(Paris, Gallimard, La Pléiade, 1938), pp. 711 e ss. Trata-se, em Rabelais, de um ensaio de sinestesia cuja agudeza terá ecos no romantismo. A audição colorida, da qual o poema de Rimbaud é um avatar (o batido “Voyelles”) encontra aqui um peso antropológico e político perene, bem mais amplo do que na imagética romântica.

(3) Citado por Jean Claude Margolin, Erasme et la musique (Paris, Vrin, 1965), p. 63
(4) Mcclelland, J.S. : The crowd and the mob, from Plato to Canetti (London, Unwin Hyman, 1989).
(5) Morrow, Glenn R. : “Plato and the rule of law” in Vlastos, Gregory (Ed.) : Plato, a collection of critical essays, ethics, politics, and philosphy of art and religion
(Notre Dame, University of notre Dame Press, 1978), pp. 144 e ss.
(6) Cf. A. Ed. Chaignet : La Vie et les écrits de Platon (Paris, Didier et Cie., 1871), pp. 403 e ss. Pantel, P. Sch. (ed.) Athènes et le politique, dans le sillage de Claude Maussé (Paris, Albin Michel, 2007).
(7) Cf. sobretudo Naudé, Gabriel: Considérations politiques sur les coups d’État (Paris, Gallimard, 2004) e Giovanni Botero, La ragion di Stato (Roma, Donzelli Editore, 1997). Yavetz, Zvi: La plèbe et le prince, foule et vie politique sous le haut-empire romain (Paris, La découverte, 1984).
(8) Catteuw, L. : Censures et raisons d’État
(Paris, Albin Michel, 2013).
(9) Malcolm, N. : Reason of State, propaganda, and the Thirty Years War (Oxford, Clarendon Press, 2007).
(10) Cf. Estudos sobre Hegel, Direito, Sociedade Civil, Estado
. São Paulo. Unesp, 1989.
“Das Volk, ohne seinem Monarchen und die eben damit notwendig und unmittelbar zusammenhängende Gliederung des Ganzen genommen, ist die formlose Masse, die kein Staast mehr ist” , Grundlinien der Philosophie des Rechts in Werke in zwanzig Bänden (FAM, Surhkamp, 1970), V. 7, p. 447. Karl Marx analisou de modo consistente as afirmações hegelianas sobre a forma do regime e do povo, na monarquia e na democracia. Não cabe aqui discutir tal sofisma anti-democrático de Hegel.
(11) Lazzeri, Christian e Reynié, D. : La raison d’État, politique et rationalité e Le pouvoir de la raison d’État (Paris, PUF, 1992).
(12) Livro até hoje essencial sobre a propaganda e sua forma de escravizar as massas, cf. Tchakhotine, Serge: Le viol des foules par la propagande politique
(Paris, Gallimard, 1952).

Roque

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